As Coisas (G. Perec)

Quando abri este livro dei comigo a sentir-me soterrada pela infinidade de coisas que Perec nomeava e apontava. Abre-se o livro e uma casa que se abre também: percorremos cada detalhe, cada pormenor, cada coisa, tanta coisa a ponto de nos cansar.   Assim se percebe que estamos perante um escritor que sab…

Bela (A. C. Silva)

Ler a poesia de Florbela é saber, desde logo, que ser poeta é ser mais alto . Este verso parece condensar toda esta biografia romanceada tão bem escrita por Ana Cristina Silva.   Florbela nasceu e morreu amparada no colo apertado da tristeza. Nascida de um relacionamento extraconjugal, sendo criada pela …

O Belo Verão (C. Pavese)

«O Belo Verão» de Cesare Pavese traz-nos aquela brisa agradável de uma manhã à beira-mar. Como uma brisa, há momentos na vida que se guardam com especial cuidado e a adolescência pode ter tal impacto nos dias vindouros que, por cautela, deveriam as suas memórias ser guardadas em papel de seda, com esmero, co…

Baumgartner (P. Auster)

Com Sy Baumgartner, Paul Auster escreveu um livro em que a finitude da vida parece um centro de mesa com um naperon a condizer. Como em todos os livros do autor, há uma tristeza natural, cheia de vida, tão cheia de certezas. Neste livro escreve-se um homem em luto e em confronto consigo mesmo na solidão de…

Manifesto pela Leitura (I. Vallejo)

Quando amamos muito algo, parece-nos quase impossível estacionar justificações num motivo único. Pensa-se que por o amor ser tão grande, por si só, nos basta para compreendermos. No entanto, eu sou defensora da solidez de um conhecimento na mesma medida em que este pode, sim, ser explicado.   No que to…

A justiça de Yerney (I. Cankar)

Eis uma das frases que encontro no dicionário para definir o conceito de justiça: “princípio ou virtude moral que inspira o respeito pelos direitos de cada pessoa e pela atribuição do que é devido a cada um.”   Em «A Justiça de Yerney», do esloveno Ivan Cankar (1876-1918), não há justiça que lhe seja s…

Jardins Perfumados para os Cegos (J. Frame)

Talvez pela força de quem viveu na pele o estigma da doença mental, Janet Frame trata o leitor com aquele respeito que só os grandes escritores detêm: a capacidade de fazer o leitor indagar, pensar, tentar adivinhar. A autora não nos atira um punhado de frases bonitas, esclarecedoras, que só acalmam. Não. …