Quando
amamos muito algo, parece-nos quase impossível estacionar justificações num
motivo único. Pensa-se que por o amor ser tão grande, por si só, nos basta
para compreendermos. No entanto, eu sou defensora da solidez de um conhecimento
na mesma medida em que este pode, sim, ser explicado.
No
que toca ao tema dos livros, é comum vermos leitores apaixonados que travam a
língua quando, do outro lado, alguém lhes pergunta o motivo do amor aos livros,
da arte de ler, de compreender, de tudo o que envolva esse mundo. Há uma gaguez
tímida, talvez. O verbo solto de gostar como suficiente para explicar. E apesar
de compreender a tendência, eu sou contra isso. Hoje explico o motivo.
Para
mim, amar, por si só, é compreender. Assim como «manifesto» está para «declaração»,
não poderia haver melhor título para este pequeno grande livro de Irene Vallejo.
A autora, numa voz emotiva, declara o seu amor aos livros e, na forma como o li
e interpretei, dei comigo abraçada à imagem mental de uma árvore. Lá chegaremos.
Na
perspetiva da autora, ler assume-se aqui como um verbo de descoberta. Os livros
e a leitura como acesso a novos lugares, dentro e fora de nós mesmos. Isto
remete-me para a importância da disciplina de História cuja grande premissa nos
é transmitida na ideia de uma jornada, de um caminho onde, ao longo do tempo,
nos é revelado aquilo que fora antes feito, o que está por vir e, também,
aquilo que deveríamos manter ou evitar. No fundo, esta disciplina também nos
empurra gentilmente a perceber que o antigo, precisamente por o ser, pode e
deve permanecer. Que a modernidade não tem, necessariamente, de anular tudo
aquilo que ficou para trás.
Se
hoje vivemos uma revolução tecnológica sem precedentes, isso deveria significar
que todos os esforços anteriores devem ser, tão só, ignorados e desprezados?
Eis que nos estudos mais recentes na área da Psicologia se começam a chegar a
conclusões de que nos últimos cem anos não se registaram quaisquer mudanças ao
nível do cérebro e que, paralelamente, os avanços da tecnologia parecem
avassaladores para as nossas mentes. Porquê avassaladores? Porque o cérebro
precisa do vagar para que uma verdadeira integração do conhecimento aconteça.
Para
melhor esclarecer este ponto, peço-lhe que imagine uma esponja de lavar a
loiça, por exemplo. O que acontece quando está completamente embebida na água?
Não reterá nem mais uma gota, concorda? Agora substitua essa esponja pelo
cérebro e poderemos ter uma ideia mais clara da avalanche de informação a que
estamos sujeitos, diariamente, sem a secar e dissecar com base no fator mais
importante para lhe atribuir significado: o tempo.
Numa
atualidade movida pela pressa de chegar sem propriamente se saber onde, nunca a
Literatura se revestiu de tamanha urgência e necessidade. Segundo a autora, uma
visão da qual também eu partilho, ler é não só uma ponte que nos liga entre
tempos diferentes, como nos permite o vagar necessário de quem aprende a olhar
para dentro no reflexo do que se vive fora. Simplificando: permite-nos honrar a
nossa individualidade na dicotomia de nos sabermos, também, seres sociais. É
por isso que defendo que o aparente simples gesto de abrir um livro nos pede uma
etiqueta especial de entrada e com ela, um desafio particular: o
desenvolvimento da atenção, a devoção e a entrega ao momento presente. A
empreitada de ler um livro com cerca de mil páginas sublinha isso mesmo: a
capacidade de nos organizarmos, de respeitarmos o nosso tempo, de gerirmos prioridades,
de gerirmos frustração, de trilharmos um caminho com princípio, meio e fim. Só
assim se lê bem. Só assim se vive bem.
O
filósofo e ensaísta Byung Chul-Han teceu profundas reflexões sobre o tempo
moderno e o quanto a ideia de produtividade poderia estar associada ao conceito
de felicidade ou a uma forma de valorização pessoal. O engano é enorme quando
vemos pessoas a associar, numa quase idealização apaixonada, o cansaço extremo
como a arte de bem viver. Quando é que isto aconteceu?
É
preciso parar, como quem espreme a tal esponja cheia de água. É preciso respirar.
É preciso regressar ao tempo em que a ausência de ruído abria espaço à
criatividade que, por sua vez, abre janelas de par em par a inúmeras soluções
diferentes que a vida nos impõe. E sim, o lugar da leitura é esse espaço sem
ruído, é sofá que já desenhou a forma do nosso rabo, é o conforto de nos sabermos
sós dentro de um mundo tão maior, que não só nos ensina como nos inspira.
“Os
livros deixam registo do que fomos e do que ultrapassámos, do que nos magoou e
do que nos tornou melhores. Através dos séculos, passaram de mão em mão –
testemunhas das nossas vidas e testemunhos numa corrida de estafetas – e conseguiram
manter as gerações mais unidas.”
Nesta
que é uma belíssima homenagem aos livros, quis também eu declarar o meu eterno
amor à Literatura e reforçar a ideia de que, para mim, Ler sempre será a minha
forma de Ser e de Estar na vida. É nesse verbo que fortaleço, todos os dias, a
minha única maior ambição: ser boa pessoa.
Acredito
piamente que os livros nos moldam e que há, na jornada do leitor, todo um
caminho que se vai construindo no reflexo dos livros que, conscientemente,
escolhemos para nós. Eu acredito genuinamente na arte de ler bem, com vagar,
com intenção, e porque não, com imensa paixão. Se a saúde do corpo é refletida
pelo que comemos, a nossa alma floresce na mesma medida dos livros que
escolhemos ler e que, numa ternura arrogante, os assumiremos para sempre só e
só nossos.
Volto,
agora e como prometido, à associação de uma árvore neste amor ao livro e à
leitura. Para mim, uma das maiores belezas nisto de ler é a sensação de pegar
num livro como quem pega numa semente que se atira à terra. Quantas vezes dei
por mim a ler algo num livro que, por sua vez, me despertou dúvidas tamanhas
que me fez cair num outro livro. Insaciada nas perguntas, eis que corro para
outro livro, para outro autor, para outro género. Como uma árvore que cresce,
os livros vão-nos também atirando a semente mais importante de todas: a da
curiosidade. Uma curiosidade que se transforma no colo de quem vive a vida,
como diria José Gomes Ferreira, num eterno espanto de existir.
Nesse
meu espanto de existir, penso em tudo o que os livros me têm dado. Lembro-me dos
livros da Anita e da memória de uma Denise pequenina, num banco de cozinha, a
replicar a receita de maionese do livro, ao lado da minha Mãe. Lembro-me também
de que foi com o livro «O Tiago e o Feijoeiro Mágico» que despertei o meu interesse
pelo desenho e, na mesma medida, aprendi sobre o quanto a resiliência nos faz
gente. As bandas desenhadas com o Mickey, o Tio Patinhas ou o Pato Donald
levam-me de volta às belas tardes de Verão, com o meu irmão e os meus primos,
antes de uns mergulhos na piscina para, logo depois, competirmos sobre quem
conseguia comer mais bolachas Oreo. O meu irmão ganhava sempre. [risos]
Nas
memórias dos livros, guardo-os em mim para lá das suas histórias. Relembro tempos
vividos e os livros como legendas. Com Salinger, afirmei a fase da adolescência
como uma das mais bonitas e desafiantes. Já mais velha, fiz de Jane Eyre a
Mulher que me ensinou que amar bem é, jamais, prescindir do nosso amor próprio.
No ombro amigo de Afonso Cruz partilhei o meu fascínio pelas viagens e o quanto
gostaria de conhecer mais, mais e mais. Nessa mesma estrada, com Laxness, percebi
o quanto desejar independência me fez escolher caminhos que só poderiam ser aqueles.
Oh, Dostoiesvki: o homem que me amparou tantas dores e me ensinou a ver a vida
naquela aragem fresca da ambiguidade, de que nada é preto e branco e que,
afinal, se calhar, esse limbo da incerteza é o sal de uma vida mais apreciada.
Poderia
continuar a elencar tantos e tantos outros escritores, como Tolstoi, Nemiròvski,
Steinbeck, D.H. Lawrence, Plath, Woolf, Dickens, Hardy, Mann ou George Eliot,
tudo para agradecer o quanto me deram, o quanto me dão e o quanto, com os
livros, a vida se torna tão … mais.
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