Com Sy Baumgartner,
Paul Auster escreveu um livro em que a finitude da vida parece um centro de
mesa com um naperon a condizer. Como em todos os livros do autor, há uma
tristeza natural, cheia de vida, tão cheia de certezas. Neste livro escreve-se
um homem em luto e em confronto consigo mesmo na solidão de uma casa tão viva
como gente.
Abrem-se assim as
portas à casa de Baumgartner, um senhor que já ultrapassou os 60 anos e que, nos
cantos perdidos da casa, lida com a dor pesada da morte da mulher. Há saudades
que são verdadeiros pesos, que nos fazem sentir o peito apertado por um sapato
grande e pesado. É assim que este homem se sente e é assim, nessa penumbra
feita de saudade, que na solidão de uma casa mais viva do que ele, as memórias
não param de trepar pelas paredes, trepadeiras que se vão soltando e,
gentilmente, se lhe agarram a cada pedaço de si. A morte da mulher surge como
confirmação dos dias que lhe restam, embora persistam rasgos de coragem que o
levam a vislumbrar algo mais, antes de a realidade da sua vida o puxar
novamente. O refúgio, o conforto, esse, ele encontra-o sempre nos cheiros, nas
roupas, nas histórias que só as paredes sussurram sem nunca errar.
Como um disco que gira,
para e volta a girar, assim Auster nos escreve um livro que honra o que de mais
precioso uma pessoa pode ter. Falo da experiência de viver e no bolso, um papel
feito lembrete para as dores de todos os dias. Um bolso quente que nos ampara
nos momentos em que precisamos de regressar ao que foi e já não volta. Aqui falo
no poder da memória como quem corre, num ritmo cardíaco aflito, em direção ao
único lugar onde se tocou, ao de leve, nessa fragilidade que é a vida e onde,
por breves momentos, fomos assolapados com o espanto de, na primeira pessoa,
nos deixarmos existir.
Um livro que é, eu
diria, uma bonita homenagem ao poder da memória, como quem se agarra à vida
depois desta ter zarpado, tão cheia de si, levando o nosso melhor. Que se
guarde, pois então, no cérebro, no coração e na alma, cada bocadinho do que
foi.
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