Eis uma das frases que
encontro no dicionário para definir o conceito de justiça: “princípio ou
virtude moral que inspira o respeito pelos direitos de cada pessoa e pela
atribuição do que é devido a cada um.”
Em «A Justiça de
Yerney», do esloveno Ivan Cankar (1876-1918), não há justiça que lhe seja
suficiente. Dito desta forma, poderíamos pensar que este homem é senhor do seu
nariz e que precisa de ver reivindicado o esforço de uma vida da forma mais
exuberante. Enganem-se os leitores. Yerney quis apenas a justiça que cabe na
humildade dos que se sabem merecedores.
Nesta pequena novela
acompanhamos a história de Yerney, um trabalhador rural que dedicou toda a sua
vida ao serviço de um proprietário muito rico. Quando este morre, o filho pura
e simplesmente enxota Yerney como quem no nariz tem uma mosca que o incomoda.
Yerney envelheceu. As
pernas já não obedecem tão bem. O corpo está cansado. Tudo aquilo que ajudou a
construir é tido como apenas a ordem natural das coisas sem espaço ao direito
de, também ele, usufruir justamente de um mero pedaço do que, tão dignamente,
ajudou a erguer.
Esta é uma novela que
se lê em menos de duas horas, mas cuja simplicidade carrega uma complexidade
que permanece em nós muito depois da última página.
Acompanhei, indignada,
toda a jornada deste bom homem em busca do bom nome da Justiça. Entre estradas
e vielas, no confronto com as mais caricatas personagens, este homem caminhou
até mais não poder para concluir, numa resignação agridoce, que a justiça dos
homens é enfeite debruado na mais refinada hipocrisia. A luta de Yerney reflete
a mais profunda intenção do autor: invocar críticas cerradas às desigualdades
sociais e a um sistema que abraça poderosos descartando os trabalhadores.
Num tom verdadeiramente
humano e simultaneamente simbólico, este pequeno livro é como um toque que desperta
a ânsia desesperada dos corações bons que, de tão bons, ficam cansados. Dizem
que o cansaço de quem se dedica a uma vida pautada pela bondade e por essa tal
justiça, mais cedo ou mais tarde, se transforma em labaredas que levam tudo
pela frente.
Atrás, ficará Yerney.
Quem sabe, um pouco
mais reconciliado com a (in)justiça de homens que não lhe merecem sequer o
nome.
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