Bela (A. C. Silva)


Ler a poesia de Florbela é saber, desde logo, que ser poeta é ser mais alto. Este verso parece condensar toda esta biografia romanceada tão bem escrita por Ana Cristina Silva.

 

Florbela nasceu e morreu amparada no colo apertado da tristeza. Nascida de um relacionamento extraconjugal, sendo criada pela esposa do pai, uma mãe ausente e o constante reverberar de um passado onde lhe atribuíam culpas desmedidas para o seu pequeno tamanho de criança, assim se foi escrevendo mulher. E é precisamente nas folhas de papel que a poesia lhe brota como quem drena dores que lhe foram incutidas por terceiros. A tristeza dos outros, o desencanto de uma casa sempre em ruínas, fez crescer nela uma tristeza fechada em si mesma. E tudo o que vive fechado, dê por onde der, precisa de sair. Florbela precisava de uma janela para respirar. Encontrou-a no poder catártico da poesia. O silêncio. O foco de quem nas palavras procura a resposta às constantes perguntas de um amor que nunca chega, que nunca chegou.

 

A dor de um vazio de Mãe parece ter acompanhado cada dia da sua curta vida, até mulher feita. A dor de não se sentir amada foi perpetuada nos versos aflitos e no desejo de que, no reflexo das almas dos outros, a sua dor pudesse ganhar forma, ganhar sentido. Procurou o amor nos braços de homens que pareciam versos feitos esperança, mas que, no fundo, eram apenas isso: esperanças construídas como castelos no ar.

 

Com uma escrita sincera, despojada, Ana Cristina Silva narra os fios que foram tecendo a vida de uma Mulher-Poetisa, que fez das palavras, dos versos, uma espécie de antídoto às suas dores e que, tantos anos depois, são as dores refletidas de todos nós, também.


“Os meus poemas seguiram o seu curso e sem que sentisse a brisa dos dedos sobre o papel, página de livros foram sendo reviradas. Perdi o lugar no meu corpo para dar lugar aos sentimentos de todas as almas.”

 

Morreu na certeza de não se sentir vista. Quis a ironia de uma vida arquitetada no ritmo certo do espanto que fossem os seus versos, o seu eterno refúgio, a janela escancarada que lhe permitiu, finalmente, ser vista, ser realmente vista. E por muitos, eternamente amada.


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