Quando abri este livro
dei comigo a sentir-me soterrada pela infinidade de coisas que Perec nomeava e
apontava. Abre-se o livro e uma casa que se abre também: percorremos cada
detalhe, cada pormenor, cada coisa, tanta coisa a ponto de nos cansar.
Assim se percebe que
estamos perante um escritor que sabe o que faz. Logo na primeira página fez-me
sentir o peso das coisas em detrimento de um vazio existencial. Há um cansaço
na descrição contínua de uma casa repleta de conforto, mas que é apenas isso,
um conforto rendilhado, arrumado, talvez distante.
Através de Sylvie e
Jerôme, um jovem casal com pouco mais de 20 anos, o leitor é convidado a conhecer
as suas vidas pautadas por desejos muito profundos e que, todos juntos, se
resumem a coisas. A ter muitas coisas. O verbo «ter» como arremesso a uma falsa
ideia de «ser». Um verbo apressado que se pôs a caminho na ânsia de conquistar
a vida que viram, tantas vezes, ostentada pelos outros. Ruas caras. Roupas chiques.
Todo um código que grita uma determinada condição e essa condição, para o ser
de facto, tem de estar recheada de coisas, de muitas coisas.
De uma forma sublime,
Perec escreve uma história repleta de coisas para, num paralelismo absolutamente
magistral, deixar o leitor [atento] em confronto com um enorme vazio. Um vazio
representado por este jovem casal que passará os dias a fugir dos moldes de uma
vida que assumem como castradora, mandona e até cruel. Uma jornada de constante
fuga para, numa ironia sem par, acabarem exatamente no mesmo sítio e com o
coração ainda mais desordenado. O tempo que passa na vida dos dois não lhes dá a
serenidade necessária para perceberem a sua tacanhez, a estupidez de quem
sempre se acha mais inteligente. Será nesse constante limbo entre a realidade e
o desejo que ambos deambulam pela vida, pelos dias, cheios de coisas, certos de
poderem comprar mais coisas ainda apenas para se iludirem nessas “prisões da
abundância, as armadilhas fascinantes da felicidade.”
Através deste casal [tão] vazio, o
autor tece uma crítica muito elegante à sociedade de consumo dos anos 1960,
numa eterna busca de mais e mais coisas para, no fim, lhes venderem como único
extra, mãos-cheias de frustração e de um vazio que se adensa bem ao jeito do
abismo de Nietzsche. Quanto mais se olham as coisas que se amealharam, mais
essas coisas olham de volta, como sinónimo de dores impossíveis de serem empanturradas
por elas mesmas.
De uma forma, repito, elegante,
o autor escreve também o peso da publicidade em toda esta teia de desejos por
coisas, por ter, apenas e só, para parecer. O que valerá, afinal, ter na vida? Uma
pergunta que se deseja sempre em aberto e creio que sem coisas que nos tapem os
olhos até descobrirmos a derradeira resposta. Porque esta, um dia, acaba por
chegar.
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