«O Belo Verão» de
Cesare Pavese traz-nos aquela brisa agradável de uma manhã à beira-mar. Como
uma brisa, há momentos na vida que se guardam com especial cuidado e a
adolescência pode ter tal impacto nos dias vindouros que, por cautela, deveriam
as suas memórias ser guardadas em papel de seda, com esmero, com cuidado e,
acima de todas as coisas, com a certeza de ficarem retidas numa memória fecunda.
Esta é a história de
Ginia, uma adolescente de 16 anos, a viver com o irmão. Sem os pais,
rapidamente aprendeu a desenvencilhar-se numa casa e a organizar a sua vida ao
ritmo do relógio de trabalho do seu irmão mais velho, Severino. A vida era
pacata, tranquila, um pouco morna. Mas para morno, nem um chá se serve e parece
que a vida, que o Verão, tinha uma brisa diferente na vida desta miúda.
Dizem que amizade
poderia ser o nome do meio de qualquer adolescência. Amelia surge assim, qual
brisa, qual ventania, e numa amizade pautada, sobretudo, pelo encantamento,
também Ginia começa a crescer por dentro, a despertar para fora e, sem
surpresas, dá consigo apanhada na teia de uma paixão avassaladora.
Numa escrita simples,
contida e, talvez por isso, tão bonita, o leitor adensa-se na vida de uma miúda
que está a crescer, que vê nas amizades a parede onde, cansada, se pode
encostar e respirar. No grupo partilhado, aprenderá sobre arte, olhará para si
mesma, conhecer-se-á tal como é, para seu gosto ou desgosto. Este é um livro
que contém a simplicidade e a complexidade que só a fase da adolescência atrela
a um peito faminto de emoções e uma vida pela frente tão cheia de
possibilidades.
Como essa brisa em
frente a um mar imenso, Pavese escreve uma adolescente, tão cheia e tão vazia
de si, tão perdida e tão certa, tão feliz e tão infeliz, esse limbo constante
de quem quer muito crescer para, em laivos momentos, se arrepender e desejar
tão somente voltar para um colo mais seguro. Um colo onde possa chorar um pouco
sem dedos apontados a uma sensibilidade que lhe brota do peito como morangos em
terra fértil.
Um pequeno livro que se
abre para recordar ao leitor aquela brisa inconstante de memórias que só a
adolescência nos lança ao rosto e na certeza, agridoce, de uma mão-cheia de
nostalgias sobre aquilo que foi, aquilo que poderia ter sido e, feliz ou infelizmente,
nunca foi.
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