Jardins Perfumados para os Cegos (J. Frame)

 

Talvez pela força de quem viveu na pele o estigma da doença mental, Janet Frame trata o leitor com aquele respeito que só os grandes escritores detêm: a capacidade de fazer o leitor indagar, pensar, tentar adivinhar. A autora não nos atira um punhado de frases bonitas, esclarecedoras, que só acalmam. Não. Aqui abrimos um livro que, por sua vez, nos abre a vida toda feita receios, pontos de interrogação, vergonhas e tantas, tantas incertezas.

 

Numa escrita despojada e movida à beleza de uma vulnerabilidade ímpar, este livro cria em nós uma intimidade tal que, aos erguermos os olhos, deixamos de saber concretamente onde estamos. E isso, para mim, é a força maior que só a Literatura nos dá.

 

Um livro sobre tudo. Um livro sobre nada. Um livro que contém a vida. Um livro que contém a ausência de quem não sabe viver à luz dos ditos normais. Em vez de explicar, Janet Frame oferece-nos um quadro impressionista sobre a dor da diferença, de uma mente que parece viver mais para dentro do que para fora, fazendo-nos habitar um estado mental muito próprio.

 

Neste livro há uma casa. Nessa casa vivem pessoas perdidas no vácuo de um tempo que foi e de um tempo novo que parece nunca chegar. Há uma família em ruínas, cujos estilhaços são partilhados nas dores comuns de cada um. Uma mãe que fala com os objetos, aflita pelo silêncio de uma filha que, por sua vez, na companhia do escaravelho que lhe aparece no peitoril da janela, se vê menos só, mais cheia de si. E um pai, um pai com asas prestes a cair.

 

Janet Frame leva o leitor pela mão, com carinho, olhando a vulnerabilidade mental não do lado de uma patologia com direito a diagnóstico firme, mas antes pela sensibilidade acrescida dos mais frágeis e o quanto estes, pelo peso do estigma dos verdadeiros cegos, são agraciados por uma visão interna muito mais capaz, vendo e percebendo aspetos de um mundo desatento que, aos mais normais, escapa na rapidez de quem se concentra, apenas e só, no centro cirúrgico do seu umbigo.

 

Através de uma estranheza quase poética, Janet Frame escreveu um livro que se deseja inesquecível a quem, como eu, tiver o prazer de o encontrar. Mais do que a dramatização da loucura, aqui escrevem-se as subtilezas dos intensos no sentir e que, por isso, a vida se lhes torna tão apertada, mas tão apertada, que só lhes resta um «virar para dentro».

O lugar dos silêncios que acalmam.

Belíssimo. 


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