Dificilmente se
encontra na Literatura alguém tão interessado nos abismos da condição humana
como Dostoievski. Em «O Eterno Marido», uma curta novela, acompanhamos a
estranha relação entre Velchanínov, um homem marcado por um passado de comportamentos
duvidosos, e Trússotski, o viúvo de uma mulher (Natália) com quem Velchanínov
tivera uma relação extraconjugal.
Tudo começa quando Velchanínov
se percebe a ser perseguido por alguém. Em cada canto, lá estava o «senhor do
fumo no chapéu», um homem enlutado. Intrigado, quase começa a alucinar perante situação
tão intrigante, até que essa névoa de dúvidas acabará por se dissipar quando,
quase do nada, apanha o homem mesmo à sua porta. Ele não ia bater, mas já
parecia destino que estes dois tivessem de se confrontar.
Vamos descobrir que a
decisão de Trússotski procurar Velchanínov, surge após a morte de Natália, sua
esposa e ex-amante do outro. Depois deste ponto, o leitor e cai, sem defesa,
nesta que é uma história em que as sombras de um «orgulho ferido» se propagam
por tudo quanto é lado.
Sabe aquela sensação de
sermos culpados por alguma coisa e a bondade do outro ativar em nós uma raiva
desmedida? Por exemplo, duas crianças brincam no recreio e uma rouba um rebuçado
à outra. No momento em que a criança que foi roubada sem saber oferece,
generosamente, um rebuçado ao outro, este empurra-o contra o chão de terra batida
e ainda lhe dá um pontapé.
É sempre assim que
Dostoievski me deixa. Deixa-me a refletir no absurdo da nossa complexidade enquanto
gente e o quanto as justificações para as nossas dores parecem plasticina a
mudar, constantemente, de forma. A história destes dois homens personifica não
só a dor de um orgulho ferido como, na mesma proporção, enfatiza esse fascínio
estranho de Trússotski pelo homem que o traiu. O que teria ele de especial para
conquistar Natália?
As questões poderiam
ser muitas, mas, para sempre, cabe-lhe apenas o título de «Eterno Marido»,
o homem que parece condenado a ocupar eternamente o lugar do marido, atraído
por mulheres que, por sua vez, se deixam encantar por homens como Velchanínov. Tudo
se torna ainda mais complexo quando percebemos que o homem traz com ele Liza, e
a sua dúvida se aquela é realmente sua filha.
Entre dor, culpa,
ciúme, humilhação e um estranho desejo, as sombras dos dois homens vão dançando
naquele quarto escuro. Não haverá
vencedores nem vencidos. Apenas dois homens presos às próprias feridas.
E depois há Liza,
talvez a personagem que mais brutalmente interrompe o jogo de egos destes dois
homens. Perante ela, a traição deixa de ser apenas uma questão entre adultos e
ganha um peso muito mais cruel: há consequências que ultrapassam aqueles que as
provocaram.
Dostoievski, numa
história arquitetada por uma estranheza quase claustrofóbica, lança ao leitor a
inquietante questão: o quanto precisamos nós dessa espécie de bolor na alma
para que, cansados e vitimizados, possamos justificar as sombras que nos
habitam?
Até que ponto precisa
uma criança de empurrar aquela que, bondosamente, lhe oferece o rebuçado que
ela própria roubara?
Talvez seja tudo, afinal,
uma grande questão de orgulho?
Li muitas obras de Dostoievsky, talvez o eu escritor de referência, este é um dos poucos que ainda não li
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