200 Gramas de Amor, por favor


©  Fotografia de Denise C. Rolo

Depois de ter sido atropelada pelo romance “Amor que mata” da reconhecida escritora italiana Matilde Serao [1856-1927], dei comigo a pensar, face a todo o drama romântico da história, em que ruas andaremos nós, hoje, a estacionar as nossas ideias – e conceções - sobre isto de amar. Se antes, como no livro, se vivia o peso de um amor que levava tudo pela frente, hoje o amor é vivido na cautela aprumada da leveza.


Se pudéssemos nós encontrar amor aos molhos nos mercados semanais, estou certa de que quem por ali passasse, cauteloso, pediria, num máximo rebelde, uns “200 gramas de amor, por favor”. A vendedora, com timbre grave na voz, perguntaria: “Oh minha querida, tão pouco?”. Do lado de lá, com timidez na voz, esse alguém responderia que anda tudo muito caro hoje em dia e que temos de cortar no que se pode. Amor a mais – diria – faz mal ao coração.

 

“Sabe lá o que diz, menina.” – atirou a vendedora.

 

A voz do lado de lá mantém-se firme e com uma arrogância cautelosa, defende que o amor a mais lhe pode entupir as veias, causar falta de ar que, por sua vez, é potenciada por um acelerar dos pensamentos que teimam em lhe trazer a imagem daquele homem bem parecido, a ignorar. A isso acrescenta-se o medo de não se segurar das pernas, o medo de não ser capaz de caminhar pelo próprio pé. Amor a mais também provoca alucinações. Dizem que dá para sonhar. Dizem que até nos tira o ar.

 

“Não me diga!? E isso é mau?” – a vendedora pasmava.

 

Muito mau. Dizem que amor a mais nos dá a falsa ideia de que podemos aspirar a uma vida partilhada. Amor a mais é como quem abre as comportas de uma barragem e se afoga no comando da sua própria vontade. Pode correr muito mal, isso de amor a mais. Imagine que a vida se partilha e o tal homem bem parecido adoece?

 

“Ora. Na saúde e na doença, é assim com o meu José, menina.” – atalha a vendedora.

 

Cale-se lá. Eu bem lhe disse que dá alucinações. Amor a mais pode trazer esse sarilho que é o de cuidar de alguém. Não só se fica com as veias entupidas de impaciência, como deixo de ter o meu espaço, a minha vida, o meu autocuidado. [a vendedora neste ponto já arregalava os olhos]

 

“O seu auto … quê?”

 

O meu tempo. A minha vida. O meu trabalho. A ordem intocada da minha casa. Amor a mais é arriscar chinelos fora do lugar, tampa da sanita aberta, sémen perdido numa poltrona [a vendedora corou aqui], lavar cuecas que não são minhas [sobrancelha levantada da vendedora], acertar em ficar doente no primeiro dia de férias. Com ar altivo, concluiu: amor a mais é uma enorme imprudência. Eu sou muito eu. Eu basto-me.

 

A vendedora já lutava para travar o bocejo que sempre lhe surgia na presença dos pobres de espírito. Toma a palavra e remata para calar: são, então, 200 gramas de [auto] amor, menina?”

 

Sim, por favor.

 

Nesse mesmo instante, um homem bem parecido aparece na banca da vendedora e no exato momento em que a dona da voz tímida tentava agarrar os 200 gramas, as mãos tocam-se, os olhos alinham-se e os fios invisíveis dos dias enlaçam-nos naquela tão temível imprevisibilidade do que poderá vir a ser.

 

A vendedora, a sentir-se muito moderna, foi buscar a frase que o neto lhe ensinou:

“Oh miúda, já foste.” [E ainda bem].

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