"Psst! Psst! Olha: estou offline!"


O que diz ou faz a criança quando, feliz, aprende nova proeza? Grita um «Pai» ou «Mãe» entusiasmado, a exigir olhar voltado a si, esperando o sorriso da validação ou uma festinha nos cabelos. A criança precisa dessa validação através dos pais/família porque é pequenina e precisa, na chamada co-regulação, aprender que será capaz, também ela, de se regular por conta própria.

A criança precisa dessa validação, dessa atenção e do verbo -mostrar- porque ainda é pequenina e está a encher-se de si, reabastecida de aprendizagens que são como alicerces para se sustentar a si mesma, às suas emoções. Numa frase simples: aprender a Ser. A Ser Pessoa.

Sempre aprendi que aquilo que distingue as crianças dos adultos é que estes têm mais controlo (naturalmente) sobre si mesmos, sobre o seu sentir e sobre as suas ações. Tendencialmente, é aquilo que se espera. Hoje, radicalmente, e fruto da profissão que abracei, vejo crianças com tino mas em risco emocional perante adultos cada vez mais infantis.

Lembra-se do exemplo acima da criança, feliz, a mostrar proezas aos Pais? Hoje o mundo está recheado, numa desordem admirável, de pirralhos adultos em carência tal, que tudo o que fazem está voltado a esse verbo, sempre em saldo, que é «mostrar». Mesmo quando não se mostra. Vou explicar.

O que significa tendência? O dicionário diz-nos algo como: "(...) aquilo que leva alguém a seguir um determinado caminho ou a agir de certa forma." Ora, se antes a casa era o cenário onde a criança (repito: a criança) fazia as suas proezas em busca de validação (natural), hoje temos as redes sociais como salão para uma feira de vaidades pautada por essa tendência. Qual tendência? Isso não interessa assim tanto. Se for tendência, segue-se. Mas com que propósito? Ora. Então? Mostrar. Mas mostrar o quê? Ah, isso também não interessa. É mostrar. Nem que seja mostrar que não se está a mostrar. Confuso? Vamos lá destrinçar. 

Como mulher atenta que sou, gosto muito de observar os comportamentos e essas tais tendências. Confesso que na maioria das vezes estaciono num gigantesco ponto de interrogação que só me vende mais e mais questões. No entanto, vou refletindo sobre esta sociedade-enxame, bem ao jeito do que Byung-Chul Han escreveu. 

Só vejo uma utilidade nas redes sociais: agregar valor com algo que a pessoa possa entregar que não ela mesma. Por exemplo, contas profissionais que possam elucidar as pessoas para determinados temas, contas que falem sobre arte, cultura geral, literatura, etc, ou seja, que proporcionam sementes para que alguém as possa agarrar e fazer crescer em beneficio próprio. Dar do que se sabe. Partilhar e crescer em conjunto. Genuinamente não consigo entender como poderia eu agregar valor a alguém mostrando como eu era no ano de 2016. Também me é difícil perceber como poderia eu agregar valor partilhando o meu rosto transformado em desenho animado. Fica difícil entender como se pode agregar valor mostrando com o «dump das férias», dos meses, do que seja. Repito: genuinamente não consigo compreender e só me faz entristecer o quanto a humanidade me parece cada vez mais, não só autocentrada, mas acima de todas as coisas, tão - mas tão - vazia. 

O que deu origem a esta minha reflexão vem de uma dessas tendências que, pessoalmente, mais me intrigaram e continua a intrigar. Falo da tendência de exaltarem o quanto é bom ("ai que alívio!" - desculpe, deixei cair aqui a minha ironia) estar offline. Não entendo. Eu própria, como profissional, tenho conta numa dessas plataformas e jamais teria um discurso de quem está feliz por bazar dali. Serei estúpida quando comparo esse cenário ao dono de uma loja/empresa começar, ali ao balcão mesmo, a vomitar frases do quanto esteve feliz enquanto foi de férias? Assim em frente aos consumidores? No contexto das redes sociais, vejo tal postura como um desprezo às pessoas que seguem as suas páginas, pessoas essas que lhes dão atenção e antena. No mínimo, uma grande falta de chá. [risos]

A juntar a tudo isto, eis que percebo uma linha geral e que vai desaguar precisamente no ponto que falei acima: não mostrar para ir mostrar que não está a mostrar [gargalhada]. Vou dar um exemplo: a pessoa vem desabafar para o seu "público" (o mesmo de quem diz estar farta, ao fim e ao cabo) e depois dá entrada no palco exatamente igual à maioria e que começa com a frase "estes dias off têm sido incríveis, o quanto é maravilhoso sair deste ambiente." Serei a única a pensar: "para quê que voltaste, então?"

A necessidade de mostrar as proezas nesse grande salão digital é tão, mas tão grande, que se chega a este ridículo de gritar, bem alto, que estiveram offline e [Cristo Nosso Senhor] carregados de todo o arsenal de fotografias necessário para mostrar esse tal estar offline que, vai na volta, é offline coisa nenhuma. [risos]

É este o circo que percorre os nossos minutos, as nossas horas, os nossos dias. Adultos que se esqueceram de o ser e que, por isso, se alimentam de atenções alheias, de pessoas alheias, de tudo alheio, na vã tentativa de se validarem. Com o quê, mesmo? O que resta? O que fica?

Não é minha intenção trazer respostas porque não as tenho. Mas penso sobre isso e o quanto as gerações futuras começam já a ganhar aquele bolor de quem se deixa contagiar por esse verbo maldito: «mostrar». Não se sabe bem o quê, mas mostrar. Mostrar para comprovar que não se está vazio, estando-se mais vazio do que nunca. Reabastecendo mágoas no vazio dos outros, numa espécie de retroalimentação de tristezas partilhadas mas que, com um pouco de maquilhagem, lá se vão disfarçando. E no ângulo certo, a fotografia perfeita. Duas horas depois de paciente avaliação, escolhe-se a mais bonita.

Para mostrar, claro está.
Pstt. Psst. 

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