Sobre o verbo «pasmar»


Naquele dia, à minha frente, tinha uma Mãe muito preocupada. A filha começa a revelar algumas dificuldades nas aprendizagens, a Professora é extremamente exigente, os alunos começam a revelar fortes sintomas de ansiedade, choram antes e depois dos testes. Contou-me que a maioria dos Pais não pensou duas vezes e colocaram os filhos a ter explicações a todas as matérias.


«O que acha, Dra. Denise, também devo colocar a L. na explicação?»


Antes de partilhar a minha resposta, permita-me anotar um pormenor muito importante: estamos a falar de uma criança com 6 anos de idade, no primeiro ano do 1º Ciclo de Ensino. 


«A L. precisa de tempo para aprender e precisa do dobro desse tempo para brincar, para pasmar.» - respondi. A Mãe sorriu, aliviada. 


Esta história, entre tantas vividas em consultório, serve de introdução a um tema que muito me diz e, na mesma medida, muito me preocupa. Falo da necessidade sempre tão arreigada de produtividade, de um raio de uma produtividade que, na maioria dos casos, nem se lhe entende qual o propósito. Desde que possamos mostrar ao mundo que há algo feito, parece que nos acresce um determinado valor. Um raio de um valor que, na maioria dos casos, também não se lhe conhece sentido. Estacionamos no verbo «mostrar» e, meios aparvalhados, ficamos ali naquele limbo de uma enorme exaustão com espectadores, a única prova de que valeu a pena. O quanto será grande a alma que o faça valer a pena, como nos ensinou Fernando Pessoa? O quanto se coloca, de facto, alma naquilo que se faz e o ao propósito que a move?


Quando vejo pais desnorteados a colocar os filhotes (tão) pequeninos já naquela azáfama de explicações e outros que tais, sinto que pode ser algo muito preocupante neste mundo de hoje. Sem rendilhados possíveis, só posso dizer o quanto é anormal essa necessidade de transformar as crianças em pequenas máquinas de somar e fazer, que de tanto ritmo orquestrado, avariam por completo na função mais importante de todas: pensar. Pensar pela própria cabeça.


E para isso, as crianças precisam de pasmar, um verbo que não deveria ser apagado das vidas de todos nós, miúdos e graúdos. Mas, sobretudo, nos miúdos, esse molde dos crescidos que serão um dia. Se for ao dicionário, encontra no significado desse verbo no sentir, ou provocar, admiração, assombro ou surpresa. 


E é aqui que entra o grande poder da Natureza que, de mãos dadas a essa bela arte da contemplação, faz medrar os miúdos na mesma proporção de uma boa malga de sopa, cheia de legumes. A Natureza não só cura como faz crescer, em especial, um valor que - quero acreditar - todos os Pais mais desejam nos filhos: a empatia. 


Lucy Jones, no seu livro «Perder o Paraíso: as nossas mentes precisam da natureza», fala-nos de uma investigação do Psicólogo Dacher Keltner (na década de 1990) em que fez uma abordagem científica à emoção de alguém se espantar pela primeira vez. Segundo o autor, muitas experiências de espanto no mundo moderno ainda vêm de um encontro com a natureza. Mas o autor quis saber mais. Quis perceber a razão pela qual a experiência do espanto evoluiu. 


Citando a autora: "(...) Para perceber como ele poderia mudar as perceções do eu e de outras pessoas, Keltner mostrou a um grupo de participantes um vídeo de desfiladeiros, montanhas e outros cenários inspiradores de espanto, e a outro grupo uma cena natural que deveria ter piada. A seguir, disse a ambos os grupos que tinham ganho um prémio e perguntou-lhes se queriam partilhar o dinheiro do prémio com desconhecidos. As pessoas que se tinham rido com a cena cómica estavam muito menos inclinadas a fazê-lo. Queriam ficar com o dinheiro. Mas as pessoas do grupo do espanto estavam mais inclinadas a partilhar o prémio com desconhecidos. As pessoas eram mais éticas, mais amáveis e generosas depois de sentirem espanto, e este fenómenos tem sido replicado em inúmeras experiências. (...) Uma análise aos cérebros dos membros dos grupos deu à equipa de investigadores uma pista para o que poderia estar a acontecer. Usando a ressonância magnética, os cientistas viram que o espanto reduzia a atividade na rede de modo padrão, a zona do cérebro associada ao sentido do eu. Então, o espanto pode afastar-nos do puro interesse próprio para nos deixar interessados nos outros. Pode ajudar-nos a criar laços e a relacionarmo-nos uns com os outros." 


Quando nos permitimos pasmar com algo maior, aquele rei na barriga que nos assiste, perde o lugar no parque de  estacionamento e ver-se-á forçado a ceder espaço para algo maior, algo para lá de nós mesmos. Esse é o espaço onde a criatividade e a imaginação podem ganhar raiz, dando forma a um pensamento muito mais cuidado, consciente e enriquecido.


Quando os Pais, aflitos, se preocupam em demasia com a vida escolar dos filhos estão, naturalmente sem intenção, a enraizar aquela tal ideia de que, para termos valor, precisamos de mostrar grandes feitos. Neste caso, as crianças precisam de rendimentos exímios em todas as disciplinas. Têm de brilhar e, no reflexo, estão pais orgulhosos com o igual resultado do seu empenho. Porquê?


Parece um cenário bonito mas no fundo, o verdadeiro reflexo é o de uma humanidade (muito) adoecida. Não sei que lições nos trouxe esta sociedade atual tão dona de si, tão cheia de uma mania de que para sermos, para sermos gente, temos de correr em direção a uma perfeição muito igual. Não basta trabalhar para essa perfeição: é preciso que seja igualada com a conta, o peso e as medidas desenhadas entre todos para, só depois, se ganhar a medalha de quem pode pertencer. Queremos tanto sair da escola, ser adultos, e vai na volta, parece-me que não fomos capazes de sair de um recreio feito de brincadeiras iguais, pautadas por hierarquias que só nos permitirão «fazer parte» se o soubermos fazer «igual aos outros».


Precisamos, mais do que nunca, da rebeldia do espanto. Precisamos da fortaleza de nos sabermos pequenos a contemplar uma árvore centenária e, desse espanto, há raízes que se alastram para lá de nós mesmos. Nesse pasmar, há pensamentos que brotam para lá de uma perceção centrada apenas e só em nós, esse espaço tão pequeno para que a vida se espalhe. Precisamos da rebeldia do espanto de quem sabe que a vida é muito mais do que olhar para baixo e ver as pontas dos sapatos. Precisamos da rebeldia que nos convida a olhar para cima, a respirar ar puro, a criar, a inspirar e a ser inspirado. Será sempre nesse verbo que é  «pasmar» que poderemos encontrar a calma que nos revela um talento único, por muito mau aluno que possa ser a Matemática. É nesse verbo, de quem ousa pensar para lá da sua própria bolha, que a individualidade é semente e aquilo que um não sabe, outro pode ensinar. E assim, viver assume-se como verbo (muito) maior.


Talento para as artes e uma nulidade na Matemática. Um aluno exemplar a Matemática mas com dois pés esquerdos para a dança. Uma dançarina talentosa que aprende a somar sucessos e subtrai, no outro, a falta de jeito para mexer o corpo. Por mais espanto a existir, pasmemos mais permitindo que a vida seja maior, seja elástico que nos puxa para um caminho só nosso, com essa tão grande beleza de nos sabermos iguais, precisamente, pela coragem de uma autenticidade assinada sem termo.


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