Contém Spoilers
Parti para esta leitura com expectativas muito elevadas quando, na capa, há uma comparação deste livro a “1984” de Orwell ou “Admirável Mundo Novo” do Huxley. Apesar de ser um livro interessante, confesso que não foi um dos que mais gostei de ler.
Numa Inglaterra distópica, as pessoas vivem na sombra de um acontecimento traumático do passado conhecido como «O que aconteceu, se é que aconteceu». A sociedade procura evitar novos conflitos apagando a memória histórica, alterando nomes e reprimindo referências a identidades coletivas. Há um medo generalizado de falar, de sentir, de pensar.
No meio do tumulto do medo, uma história de amor acontece: Kevern Cohen, um entalhador reservado que tem o hábito de levar dois dedos aos lábios quando pronuncia palavras começadas por J, conhece Ailinn Solomons, uma jovem órfã, e os dois apaixonam-se. Um dos aspetos mais interessantes aqui, ao leitor mais atento, é perceber, desde logo, que o encontro dos dois é orquestrado por terceiros, suscitando o interesse de Esme Nussbaum, antiga funcionária de uma organização de controlo social, que investiga o passado e procura recuperar uma identidade histórica deliberadamente apagada.
O livro é bastante intrincado, pede-nos atenção. Por vezes, dei comigo a sucumbir ao cansaço e à impaciência mas, mesmo assim, valeu a pena chegar ao final para perceber o ponto central que o autor quis trazer: o acontecimento silenciado está ligado a uma nova perseguição e eliminação dos judeus. O significado da letra J fica, assim, exposto: um símbolo proibido dessa identidade e os hábitos de Kevern revelam a transmissão clandestina de uma memória que a sociedade tentou destruir. Kevern representa aquilo que não seria suposto, a exceção de um coletivo feito de fortes convicções.
A ideia central é que apagar a memória de uma violência não significa eliminar as suas causas; pode apenas permitir que se repita. Este é, para mim, o ponto alto da história. Haverão sempre exceções. Exceções como um vento inesperado que passa para derrubar uma ordem muito podre das coisas. Um vento chamado vida onde o controlo é meramente uma plasticina moldada por mãos de criança. Ao sabor exclusivo da sua vontade.
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