Nascida e criada numa pequena
aldeia, rapidamente me acostumei a ouvir os mais velhos dizerem qual era o
melhor dia para as sementeiras. Abria-se a gaveta e de lá saía um “Borda d’Água”
com as previsões meteorológicas tradicionais, bem como conselhos para a lavoura
e as fases da Lua.
Fosse tudo isto um
sistema familiar, creio que o campo seria irmão chegado da Natureza. Os
arranha-céus e a agitação típica das cidades só lhe darão, quero crer, um
parentesco de primo afastado. E não o digo com maldade. São as inevitabilidades
da vida. A força do que é. O campo pede-nos uma atenção diferente às coisas
do céu e da Terra. Embora Cristina Carvalho não faça, em «O Almanaque do
Céu e da Terra», especificamente, essa distinção, ouso eu fazê-la. Neste
pequeno almanaque encontramos as riquezas do mundo natural, nessa relação tão
bonita entre o céu, a Terra e nós, pontinhos de gente espalhados por um Universo
tão vasto, tão encantador.
Através das suas
sensíveis observações, a autora pega-nos na mão e vamos juntos por essas
bonitas reflexões sobre o mundo que nos rodeia e a curiosidade como motor
central. A vida, os seus enigmas, as suas surpresas: uma soma infinita de espantos.
Um pequeno livro que
contém a grandiosidade da Natureza e as suas belezas: o céu, de dia e de noite,
as estrelas, as nuvens, os poderosos ventos, cometas, constelações, o
anoitecer, o amanhecer. Uma amálgama de belezas com que a vida, diariamente,
nos presenteia. Num tempo cada vez mais desatento, a autora ousa relembrar a
importância das pequenas grandes coisas que nos ajudam a conjugar, mais
conscientemente, o verbo viver.
Como amante da natureza
que sou, feliz por ter nascido num cantinho feito verde, sinto-me
arrogantemente uma filha muito próxima. Lembro-me da sensação que foi ler em «A
Cidade das Flores», de Augusto Abelaira, a experiência de uma rapariga em tirar
os sapatos na rua e sentir a relva fresca nos pés. Eu não teria mais de 20 anos
quando li esse livro e, até hoje, com os meus quase 42 anos, nunca esqueci.
Gosto de acreditar que tal se deve à impressão digital que a natureza cravou em
mim, desde sempre.
Uma impressão que tem
em mim um fio infinito de memórias bonitas. Os pés e as pernas roxas de calcar
as uvas. Os constantes elogios de uma menina que apanhava mais batatas da terra
do que muitos adultos [risos]. O pânico de ter visto um passarinho pela
primeira vez sem uma pena ainda. O cheiro da terra molhada nos meses de Verão.
Os pés descalços no alcatrão a escaldar. Os tanques de lavar a roupa transformados
em piscinas. Colher amoras para uma tarte. Tremer como varas verdes quando um
sardão aparecia. Apanhar pinhas e preparar o Inverno.
Ler o livro de Cristina
Carvalho resultou assim numa dupla bonita surpresa: o bom que foi ler as suas
observações sobre o que nos rodeia e, depois, entregue aos meus próprios
pensamentos, cair nessas tão doces memórias de uma Natureza muito próxima, como
uma Mãe que, gosto de acreditar, me ensinou muitas das coisas que fizeram de
mim a mulher que sou hoje.
Belíssimo.
Recomendo com ambas as
mãos.
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