Os despojos do dia (K. Ishiguro)

 

Em “Os despojos do dia”, Kazuo Ishiguro prova que a aparente simplicidade de um tema, pode transformar-se numa profunda reflexão sobre a complexidade humana. Através do estereótipo da figura de um Mordomo Inglês (Mr. Stevens), o autor traz a lume o tema central deste livro e que nada mais é do que o medo de sentir. O medo desenfreado das emoções.

 

A história começa com Stevens, o mordomo perfeito, numa viagem pelo campo, numa narrativa interna que acompanha todo o livro, refletindo sobre os seus trinta anos em Darlington Hall, ao serviço do por ele idolatrado Lord Darlington. Nessas reflexões, o leitor mais atento perceberá que, a maioria, são tentativas um pouco vãs de se convencer a si mesmo que a condução que fez da sua vida foi pautada pela correção e, maioritariamente, pela dignidade.

 

Mas a questão que se impõe, a meu ver, é: dignidade em que contexto? E esta parte é incrível no livro. Stevens é um estudioso assaz desse conceito de dignidade, mas dirigido ao desejo central da sua vida, transformado na pergunta: “(…) o que é um grande mordomo?”. Stevens vive para cumprir essa função que, para a Sociedade Hayes é classificada como: “(…) dignidade de harmonia com a sua posição.” E assim fez Stevens. Assumiu a posição de mordomo, que, como uma peça de xadrez, está limitada, apenas e só, a movimentos muito certos e predefinidos.

 

Numa entrevista que assisti do Ishiguro, este disse algo que me marcou particularmente: “Somos todos mordomos.” E, para mim, este é o verdadeiro ponto nevrálgico de toda a narrativa. Como já referi anteriormente, o autor, através desse tão conhecido estereótipo do mordomo inglês, roupa e alma passadas a ferro sem ousar um vinco, faz-nos questionar o quanto também nós resiste a uma vida feita de emoções. Através do molde de um trabalho, de uma profissão, há um espaço mais seguro para, talvez, nos firmarmos como gente. Resta uma dura questão que me surge: não será a tendência de assumir um ofício uma servidão mascarada de utópica liberdade?

 

A viagem de Stevens tem um destino claro: Miss Kenton. Há vinte anos, Miss Kenton deixara Darlington Hall para casar. A relação entre ambos é maravilhosamente concebida e, pessoalmente, prestei particular atenção a duas polaridades representadas por cada um: a resistência de Stevens e a leveza de Miss Kenton. Quando ela, de coração leve, decide por si mesmo levar um bonito ramo de flores para embelezar o quarto de Stevens, este parece um ouriço-cacheiro muito exaltado, mas, claro, naturalmente disfarçando a emoção. Não foi à toa que escolhi este animal que, em média, tem cerca de seis mil espinhos aguçados por todo o corpo [risos].

 

Assim parecemos todos nós, um pouco à laia do que o autor refere naquela entrevista. Seres espinhosos, em constante defesa de um coração que, de tanta resistência, se torna empedernido por si só. Ironias da vida ou, tão somente, estupidez humana? [Ops].

 

Ao longo dos anos, Stevens parecia estar bem com a decisão de se tornar um mordomo digno desse nome. Ao longo dos anos, Stevens esqueceu-se da dignidade da sua própria humanidade e é aqui que o eixo de toda a história se alinha com uma pergunta que a todos, sem exceção, deveria imperar: o quanto nos assumimos “reis e senhores” da nossa própria vida? O quanto a conjugação da autenticidade, no meio de tantas e esperadas demandas da vida, é feita na primeira pessoa do singular?

 

Stevens vestiu esse fato de dignidade não apenas como fiel mordomo, mas, também, como parte integrada de si mesmo como homem. O homem que assumiu cega lealdade ao seu Lord, brilhante em empenho na mesma proporção dos copos de cristal, imaculadamente limpos. Mas no meio disto tudo, onde está a dignidade de si? O que lhe sobrou?

 

Dos despojos dos seus dias, a Stevens sobrou-lhe uma mão cheia de arrependimento.

 

O quanto ousamos nós, comuns mortais, numa vida em que “controlo” sempre será ilusão? O quanto ousamos a ceder a uma vontade muito mais profunda e a única que imprime em nós a maior singularidade que é, sem arnês, amar até não mais poder?

 

A sobrar alguma coisa, que nos sobre amor.

Isto de ler dá [mesmo] que pensar. Não dirá?

Boas leituras.


1 comentário

  1. Li este livro há uns anos, logo a seguir a ele ter ganhado o prémio Nobel, estou interessado em ler outro livro dele, mais recente Klara e o Sol, mas ainda não o comprei

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