“A este sentimento
desconhecido, cujo tédio, cuja brandura me obsidiam, hesito em aplicar o nome,
o belo e grave nome de tristeza.”
Assim começa o célebre
livro “Bom dia, Tristeza”, escrito por Françoise Sagan quando tinha
apenas dezoito anos. Esta história fala-nos de Cécile, uma adolescente. Talvez
pelo facto de ter escrito o livro, também ela uma adolescente, resultou na
criação de um ambiente absolutamente fiel na forma como a menina se expressa: os
pensamentos num turbilhão, o coração na garganta, a desordem no coração.
Um dos aspetos que mais
me impressionou, atendendo à idade com que o escreveu, é a circularidade da narrativa.
Assim como começa, assim termina. O leitor mais atento vê-se a ser guiado nesse
círculo que nos introduz a tristeza como o desfecho inevitável para Cécile.
Com a morte precoce da
mãe, Cécile habituou-se a uma relação pautada pela proximidade ao seu pai, um
homem com um espírito leve, que se apaixona e desapaixona num abrir e fechar de
olhos. Uma vida mais hedonista, talvez, que para uma adolescente soa a
liberdade, essa palavra tão relevante nesta fase de desenvolvimento. Uma filha
que quase vê, no pai, um adolescente apenas um pouco mais crescido, um fixe, um
adulto sem aquela parte aborrecida de um controlo sempre à mão de semear.
Numas férias de Verão,
com a namorada do pai, a jovem Elsa, Cécile está tranquila, feliz na sua
liberdade e preparada para o sol na pele, o mar nos pés e, talvez, um amor que
lhe desperte o corpo. Nessa plenitude de quem vive os dias nesse ócio doce, “invadida
de felicidade”, eis que Anne chega lá a casa. Anne sempre fora amiga do seu
pai, com idades próximas. Uma mulher muito admirada por Cécile, pela gentileza,
pela elegância e pela sua inteligência.
Até aqui, tudo bem.
Parecia que cada pessoa tinha uma gaveta feita à medida para ser quem tinha de ser.
Tudo muda quando o pai, Raymond, se apaixona por Anne e, contra todas as
ideologias de um homem que não se compromete com ninguém à exceção da filha,
decide propô-la em casamento.
Há uma imagem que me
surgiu neste momento de viragem da história. Sabe quando vai a conduzir e um
esperto qualquer faz uma manobra pouco adequada? A vontade é levantar o dedo do
meio, esbracejar e soltar uns palavrões. Mas e se, por causa da nossa raiva,
esse condutor se distrair, perder o controlo e tiver um acidente? Até que ponto
seríamos responsáveis pelo que aconteceu?
Para mim, é este o
ponto central do livro de Sagan. O quanto as nossas atitudes, mais ou menos deliberadas,
podem desgraçar a vida de alguém. Fruto de uma idade pautada pelo egocentrismo
(quase esperado), Cécile tudo fará para reconquistar a calma dos dias e a
diversão com o seu pai. Anne, sempre elegante, começa a desafiar a sua própria
confiança, um olhar para dentro nada agradável que se transforma naquela típica
raiva, cuja clássica imagem será sempre a de um constante revirar de olhos.
Anne surge como a ameaça a essa liberdade num confronto direto com a ordem dos
dias, da rotina, da estabilidade.
Na fúria que só a
adolescência sabe ter, Cécile tudo fará, num plano inocentemente orquestrado, para
ter novamente a vida que sempre gostou de ter, livre. Mas, tal como aquele
momento que descrevi de um descontentamento na estrada se poder traduzir num acidente
lá mais à frente, também Cécile será abalroada com o impacto cru das suas
ações. Um impacto muito semelhante a um choque em cadeia, carros desconhecidos
presos entre si, quem sabe, porque uma borboleta decidiu voar num minuto muito
exato.
E tudo muda, para
sempre.
“Repito este nome,
baixinho, no escuro. Dentro de mim, sinto subir algo que designo pelo seu nome,
de olhos fechados: Bom dia, Tristeza.”
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