Escrito em 1816, “Adolfo”,
de Benjamin Constant, é um pequeno livro que, no pouco, tudo diz sobre aqueles
que são abalroados pela ideia de intensidade caótica como sinónimo de amor.
Adolfo é um jovem
intelectual, indeciso sobre o que fazer da vida, perdido entre os estudos e as
aspirações de um pai exigente. Sente-se insatisfeito, atravessado por um enorme
vazio. Parte desse vazio é pautado pela inexperiência dos relacionamentos
amorosos. Até então, o nosso Adolfo não sabia o que era apaixonar-se por alguém
e escorregar nesse verbo de amar outro para lá de si mesmo.
“Vivia eu nesta agitação interior quando travei conhecimento com o conde de P., homem de quarenta anos, cuja família era aparentada à minha.”
Este é o momento em que
a vida de Adolfo está prestes a mudar. Apaixonar-se-á por Eleonor, mulher mais
velha, interessante, independente, mas comprometida, nada mais nada menos, do
que com o conde de P. Assim se afastam as cortinas de uma história cujo fim,
desde logo, fica fácil de perceber.
Todo este contexto
fez-me lembrar uma máxima da Mediação Familiar: aquilo que tende a atrair e
juntar um casal tende, na mesma medida, a ser o principal motivo de uma eventual
separação. Ou seja, se um casal não se conseguir manter unido, a teoria defende
que o motivo que os aproximou, será o mesmo que os distanciou.
Se foi a intensidade
que atraiu Adolfo, foi também a intensidade que o cansou e quase drenou. No
início, a recusa de Eleonor era gasolina que lhe incendiava o coração, como se um
desejo proibido o tornasse mais real. Quis a sua insistência que Eleonor não mais lhe conseguisse resistir aos encantos e ambos
sucumbem a uma paixão intensa, dependente e altamente conflituosa.
A paixão crescente de
Eleonor empurra Adolfo para um abismo de onde é difícil escapar. Se até
então, estava certo de um amor sem precedentes, eis que a hesitação se lhe
agarra às mangas da camisa como a maçaneta de uma porta, travando-lhe a marcha.
Que é como quem diz: a Eleonor como o travão a uma vida, agora, cheia de
projetos, sonhos para alcançar.
Voltando à máxima da Mediação
Familiar que expus acima, estaciono nas contradições dos relacionamentos
amorosos como destino final – e fatal - deste livro. O autor, de forma muito
limpa e sem artifícios desnecessários, expõe o quanto um amor disfuncional pode
trair os menos prevenidos que, inocentes, se convencem de que amar é permanecer
num constante campo de batalha. A intensidade de quem guerreia para, depois,
tudo se harmonizar numa cama. Mais eis que o fogo da paixão depressa esmorece e
a cama outrora tão virginal, depressa se volta a transformar nesse campo de batalha.
«Adolfo» é a personificação
da indecisão, dos amores cheios de febre, dependentes de uma intensidade
ilusória de quem, afinal, só se sente seguro na "ambiguidade do sentir". É tão
mais fácil viver desses resíduos emocionais, ora feliz ora desgraçado, mas
nunca, em momento algum, convicto dos próprios sentimentos.
Diria mais: Adolfo é a
personificação da imaturidade e da ligeireza de quem precisa da instabilidade
no amor para se sentir vivo — e das consequências que, depressa, se transformam
em tragédia.
Estou certa de que
pudesse eu ir tomar um café com o Benjamin Constant, em pleno ano de 1816, ele
ficaria chocado quando lhe contasse que ainda hoje, ano de 2026, são muitos os
que veem migalhas como amor, misturam a febre de uma cama num pedestal de
devoção, veem na recusa uma espécie de reverência e já que amar pressupõe essa
intensidade febril, prontos estão, também, a ser tapete, a ser escravo.
Pensando bem, caro
Benjamin, tomemos antes uma grande taça de vinho que nos deturpe os sentidos de
tamanha insensatez.
[risos]
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