Uma Cabeça Decepada (I. Murdoch)

 

Há uma ventania interessante dentro deste livro. As personagens que por ali vivem, vivem agitadas nessa imensidão de sentimentos desarrumados. Parecem folhas ao vento. Acredito que escondido por detrás das cortinas, o espírito de Freud se alastre pelas paredes, pelo chão, até pelo sofá. Sobretudo, pelo sofá. [risos]

 

«Uma Cabeça Decepada», de Iris Murdoch, é um romance que aborda o sempre interessante tema das relações amorosas, traições e desejos. Todos estes temas são atravessados por um humor muito sombrio e, num crescendo, vemos surgir um amontado de situações cada vez mais absurdas.

 

Tudo começa quando Martin desabafa com o leitor sobre o seu caso extraconjugal. Martin é um homem seguro, a amante [Georgie] parece validar ainda mais essa segurança masculina. Martin também adora a sua esposa, Antonia, uma mulher um pouco mais velha, revestida de elegância da cabeça aos pés. Martin é um homem feliz.

 

Quando chega a casa, depois de ter estado com a sua jovem amante, a felicidade cai-lhe aos pés quando Antonia, da forma mais elegante possível, lhe confessa estar apaixonada pelo psicanalista [Palmer], amigo de ambos e, agora, amante da sua mulher.

 

É assim que começa esta hilariante história sobre as particularidades afiadas dos relacionamentos amorosos. Entre transferências e contratransferências, estas pessoas, perdidas em si mesmas, alimentam um ego maior do que a cauda dos pavões. Eles sentem, para lá do absurdo e incorreção das suas ações, que conseguem controlar as suas vidas sentimentais. Talvez a maior ilusão seja a de acreditarem que conseguem controlar aquilo que sentem. Explicam o amor, analisam-no, justificam-no, mas continuam a ser arrastadas por ele como essas tais folhas ao vento.

 

Depressa Martin vê a sua vida de sonho a desmoronar. Como um castelo de cartas a tentar construir-se em dias de vento, vive constantemente à procura de alguma paz numa casa já em estilhaços. À medida que o leitor avança nestas páginas, começa a perceber uma catadupa de personagens tão ou mais perdidas do que ele. Entre teias muito intrincadas de paixões, desejos, infidelidades e revelações inesperadas, Murdoch mostra-nos o quanto somos complexos.

 

Aqui, a moralidade vive num beco escuro. Através de pessoas cansadas, confusas e excêntricas, a autora escreve uma história que convida o leitor a refletir sobre o quanto amar é um verbo muito próprio, muito pessoal. Porém, nem sempre sadio.

 

É precisamente nesse ponto, da escassez de lucidez que percorre cada uma das personagens, que o leitor acabará a rir com tamanho absurdo, mas, na mesma medida, a questionar juntamente com Martin essas ideias sobre o que, de facto, podemos entender em assuntos de amor, liberdade e moralidade.

 

Nesse clássico limbo entre o certo e o errado, entre o peso que significa seguir, ou não, os nossos valores, percebemos nesta peculiar história o quanto é difícil compreender verdadeiramente os outros e a tendência para transformar o amor numa espécie de posse. Uma posse muito estranha em que qualquer vento, por menos intenso que seja, pode derrubar fatalmente a suposta ordem das coisas.

 

Dou comigo a imaginar Murdoch a escrever este livro como uma pintora. Se fosse um quadro, o amor surgiria nele peculiarmente desenhado como essa ventania que referi anteriormente. O amor como um vento que arrasta sem tempo para pensar. Há uma crença de conseguirem controlar o amor pela razão, pela análise num divã, pelas suas próprias narrativas, mas são constantemente arrastadas – num ritmo alucinante - por aquilo que sentem. As consequências, essas, serão sentidas só mais tarde. Muito mais tarde.

 

Um livro diferente, quase estranho e, ainda assim, memorável.


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