O Vento nos Salgueiros (K. Grahame)

 

Publicado em 1908, “O Vento nos Salgueiros” é considerado um dos mais célebres clássicos da literatura infantil britânica. Apesar de ser especialmente indicado para a leitura das crianças, considero que os adultos, como na maioria dos livros infantis, muito poderiam beneficiar da bonita história de quatro amigos que vivem perto de um rio.

 

Através das aventuras de um Rato-de-água, um Texugo, um Sapo e uma Toupeira, o leitor é gentilmente convidado a espreitar o que por ali se passa para, depois, talvez deitado na relva fresca e protegido pela sombra de uma árvore, dar consigo a refletir sobre a grandeza das mais pequenas coisas da vida.

 

A Toupeira, cansada da pesada de tarefa de limpar a sua casa, decide largar tudo e explorar o mundo, a natureza em toda a sua glória. Será nesse singelo passeio que, como nas mais bonitas ironias dos dias, a sua vida será transformada para sempre. Transformada pelo poder redentor das amizades e o quanto as nossas pessoas, aquelas que estimo chamar de pessoas-luz, nos abrem caminho a uma vida com mais significado. Acredito que, precisamente por isso, nos traga também doses extra de esperança.

 

Este bonito livro é um lembrete que recebemos na infância, mas que, infelizmente, tantas vezes, o tempo vai-se misturando com os afazeres da vida, o estatuto de adulto não se pode dar ao luxo de parar um pouco e olhar para cima. Parece deixar de haver tempo, como na infância que tudo amplia e estica, para nos deslumbrarmos com os pequenos milagres de cada instante.

 

Através destes simpáticos amigos, todos eles muito singulares (especialmente o Sr. Sapo), o leitor terá a oportunidade de pensar um pouco mais na preciosidade do tempo [aparentemente] vazio, como fios que se desatam da pressa dos dias e nos permitem não só respirar fundo, como perceber que serão sempre as pessoas a única soma que faz sentido ao total de dias que nos permitem aqui ficar.

 

Pudesse eu transformar este livro num quadro e nele desenhar-se-ia a liberdade que só a Natureza nos é capaz de oferecer, o impacto dos amigos na nossa vida como um barco capaz de se manter mesmo em dias de tempestade e, por fim, como gostaria de ser capaz de desenhar a força da beleza dos detalhes num todo como, tão somente, aquele quentinho que nos toca o peito sempre que o pé, direito ou esquerdo, entra no conforto da nossa casa.


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