O Livro Branco (H. Kang)

 A carregar: 1487610 de 1487610 byte(s) carregado(s).

Releitura 8 anos depois


Reabrir este livro, oito anos depois, fez surgir em mim uma imagem muito específica: a de quem entra num enorme nevão. A sensação de quem passa uma barreira e entra num mundo em que, gradualmente, tudo se tinge de um branco muito próprio. Aqui, a cor, mais do que tudo, é a personagem central e, dela, vários matizes se misturam para nos trazer um livro feito de textos fragmentados, numa aproximação muito nítida àquilo que a vida é: fragmentos, momentos, memórias e um punhado de nostalgias. Do que foi. Do que não virá. E a humildade de reconhecer a fartura que existe no vazio do que não foi e, por isso mesmo, acaba por ser. Confuso? Creio que não. Talvez seja, somente, o paradoxo da vida. Entre ter e não ter, a vida constrói-se.

 

É precisamente nessa linha de base que este livro não só se constrói de um branco muito próprio como, também a cor se alastra à vida desta personagem. Nada neste livro é linear. A autora, marcada pela morte da irmã bebé, nascida antes dela, parece ser o ponto central de toda uma narrativa feita vento, feita nevão: percebemos uma mulher que tenta, nos escombros de uma família carimbada pelo gelo do luto, erguer-se e separar-se dessa idealização de um bebé tão querido que, por não existir, se torna tão mais presente. Quase mais presente do que ela mesma.

 

Imaginemos várias pegadas na neve. Cada pegada seria, na minha visão, um desses fragmentos que decidiu escrever. Han Kang, Prémio Nobel da Literatura em 2024, parece pincelar uma história de perda, de luto, de maternidade e família, num quadro muito próprio. Um quadro familiar, todo branco, feito neve onde, talvez, o pintor tenha deixado cair uma pinga de tinta branca. Creio que seja assim que a personagem do livro se sinta: um pedacinho de tinta branca espalhada no soalho, ao qual, pelo menos ainda, não sabe dar forma ou sentido.

 

Através de uma caminhada muito pessoal, muito branca, num símbolo de pureza, de inocência, mas, também, de dor, o leitor acompanha os fios universais que vão tecendo a vida. Fios tecidos pela passagem do tempo, pelos nascimentos e pelas mortes, pelos princípios e pelos fins mas, acima de todas as coisas, entre os espaços [brancos] que norteiam uma e outra coisa.


Enviar um comentário