
Releitura 8 anos depois
Reabrir este livro, oito
anos depois, fez surgir em mim uma imagem muito específica: a de quem entra num
enorme nevão. A sensação de quem passa uma barreira e entra num mundo em que,
gradualmente, tudo se tinge de um branco muito próprio. Aqui, a cor, mais do
que tudo, é a personagem central e, dela, vários matizes se misturam para nos
trazer um livro feito de textos fragmentados, numa aproximação muito nítida àquilo
que a vida é: fragmentos, momentos, memórias e um punhado de nostalgias. Do que
foi. Do que não virá. E a humildade de reconhecer a fartura que existe no vazio
do que não foi e, por isso mesmo, acaba por ser. Confuso? Creio que não. Talvez
seja, somente, o paradoxo da vida. Entre ter e não ter, a vida constrói-se.
É precisamente nessa
linha de base que este livro não só se constrói de um branco muito próprio
como, também a cor se alastra à vida desta personagem. Nada neste livro é linear.
A autora, marcada pela morte da irmã bebé, nascida antes dela, parece ser o ponto
central de toda uma narrativa feita vento, feita nevão: percebemos uma mulher
que tenta, nos escombros de uma família carimbada pelo gelo do luto, erguer-se e
separar-se dessa idealização de um bebé tão querido que, por não existir, se
torna tão mais presente. Quase mais presente do que ela mesma.
Imaginemos várias
pegadas na neve. Cada pegada seria, na minha visão, um desses fragmentos que
decidiu escrever. Han Kang, Prémio Nobel da Literatura em 2024, parece pincelar
uma história de perda, de luto, de maternidade e família, num quadro muito
próprio. Um quadro familiar, todo branco, feito neve onde, talvez, o pintor
tenha deixado cair uma pinga de tinta branca. Creio que seja assim que a
personagem do livro se sinta: um pedacinho de tinta branca espalhada no soalho,
ao qual, pelo menos ainda, não sabe dar forma ou sentido.
Através de uma
caminhada muito pessoal, muito branca, num símbolo de pureza, de inocência,
mas, também, de dor, o leitor acompanha os fios universais que vão tecendo a
vida. Fios tecidos pela passagem do tempo, pelos nascimentos e pelas mortes,
pelos princípios e pelos fins mas, acima de todas as coisas, entre os espaços [brancos]
que norteiam uma e outra coisa.
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