O Amor não é fome

 

Quando procurei o significado da palavra «fome» no dicionário, fui surpreendida com uma frase que mais me parecia um bolo atirado à parede: «necessidade urgente de alimento». E é na palavra «urgente» que estaciono, hoje, os meus pensamentos.

 

Parece-me que vivemos em constante estado de urgência. Uma espécie de ambulância interna com um “ti-nó-ni” estridente no coração de cada um. Um som, um ruído constante, um lembrete angustiado a colar nessa urgência uma escassez de meter dó.  

 

Apressados e vazios, assim andam os espíritos. Antigamente dizia-se que era pelo estômago que se conquistava o amor de um homem. Isso implicaria, do outro lado, uma mulher capaz de dominar a arte da cozinha, a destreza com as panelas, a mão certeira dos temperos. E depois, de coração aberto, empanturrar esse homem até que ele, saciado, caísse para o lado.

 

Há uma urgência atual em tudo, até no amor. Uma urgência que se traduz, cada vez mais, em casos de amor diagnosticados com enfartes. O amor, por estes dias, anda enfartado. O amor está doente.

 

O amor nunca poderá ser fome. Nunca poderá ser uma procura desenfreada de banquetes alheios para nos «apanhar pelo estômago» até vomitarmos as entranhas. O amor nunca poderá ser um vazio que se preenche com almôndegas.

 

Numa sociedade frenética que nada me diz e tanto me cansa, nunca me fez tanto sentido aquele ditado que a minha avó muito me dizia: “(…) a pressa é a inimiga da perfeição.” Sabemos bem que perfeição é coisa que não existe, mas, ainda assim, passamos a vida a correr, apressados, comprando-lhe todos os nossos sonhos. Mas… viver não será a maior incerteza de todas? E amar? Não será exatamente a mesma coisa?

 

Em tempos estranhos com almas pobres em sal, há sempre o medo do que é incerto e, por isso mesmo, cozinham-se os sentimentos num tempero muito próprio. Um cozinhado apressado de quem só vive uma vez.  Então, se é para se saciar, que seja até enfartar, até cair para o lado. No dia seguinte, de estômago já vazio do bom repasto, rumará à cozinha mais próxima.


Mas o amor não é fome. O verdadeiro amor é a liberdade de nos sabermos inteiros no nosso vazio. Um vazio digno de ser partilhado e ampliado na única certeza que faz de nós gente: a incerteza de tudo. A leveza de um estômago bem saciado.


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