Humilhados e Ofendidos (F. Dostoievski)


«Humilhados e Ofendidos» integra a fase inicial da maturação literária de Dostoievski, sendo geralmente considerado um romance de transição para o período da sua plena maturidade artística. Publicado em 1861, Dostoievski começara a escrevê-lo em 1860, após ter regressado do exílio na Sibéria (de 1849 a 1859). Sem surpresas, viria profundamente transformado, a nível pessoal e literário. Tal transformação acabou por reverberar em toda a sua obra posterior.

 

Parte da importância de «Humilhados e Ofendidos» surge precisamente pelo momento em que foi escrito, marcado pelas mudanças pessoais do autor e sendo considerado uma espécie de «laboratório literário» que viria a reunir os principais temas que atravessam toda a sua obra. E que temas são esses? Profundamente influenciado pela religião cristã ortodoxa, a globalidade dos temas das suas obras incide no sofrimento, humilhação, culpa, orgulho, egoísmo e perdão. Cá está um dos grandes motivos para a presente obra ser considerada como romance de transição entre os trabalhos da sua juventude e maturidade.

 

Feito este enquadramento, percebemos aqui uma obra com personagens marcadas pela dor, pela pobreza, sofrimento e injustiça social. Mas, convenhamos, esta é apenas uma pequena parte.

 

Serão poucos os escritores com tamanha perceção da psique humana como Dostoievski. Com a ofensa e a humilhação como pano de fundo, o autor convida o leitor a refletir sobre uma verdade muito difícil de engolir: a tendência (tão) humana de sofrer como uma forma (profunda) de amor. Aqui, o autor cria personagens que confundem e misturam uma ideia de que amor verdadeiro implica um enorme sofrimento.

 

Seguindo esta linha de raciocínio, algumas das personagens deste livro vivem na ideia vã de que ser boa pessoa é ser aquela que agrada, sofre e cala. Num livro repleto de pessoas com a legitimidade de responder pela forma como são tratadas, optam antes pelo silêncio e pela arte do bom sofrer. Acolhem o fado que a vida lhes trouxe. Quanto ao leitor, confortável numa poltrona, poderá ler estas pessoas e dar consigo a pensar “tanto sofrimento, mas, felizmente, não é nada comigo.” [risos]. Mas desenganem-se os mais atentos. Dostoievski, esteja lá onde estiver, estará sempre pronto a morder-nos os calcanhares, para lá do tempo, para lá de tudo.

 

O que quero eu dizer com isto? Quantos de nós já não fomos ofendidos e, numa suposta elegância, montamos um sorriso na cara e, numa postura de quem silencia a sua própria alma, definimos a nossa conduta como feita, tão somente, de uma refinada resiliência? Se fizermos disto uma constante, que lugar estaremos a criar para nós mesmos? Eu diria que esse lugar poderia ganhar o nome de «orgulho ferido» porque, no fundo, esse é o rescaldo de calarmos repetidamente aquilo que nos fere.


Tudo começa quando o jovem escritor Ivan Petrovitch, o narrador (e, em muitos aspetos, considerado também como o alter ego do Dostoievski) assiste à morte de um velho pobre, e o seu cão, em plena rua. A desatenção é geral, mas não a de Ivan.

 

O velho, de nome Smith, simboliza uma história feita de sofrimento que atravessa cada personagem, todas elas interligadas entre si. Quando o vilão Piotr Aleksándrovitch Valkóvski (o Princípe) trai Nikolai Serguéievitch Ikhméniev, a quem confiou a gestão da sua propriedade e que, ainda por cima, vê a sua filha Natacha a largar a família, fugindo com Aliôcha por amor, nada mais nada menos do que o filho do Príncipe, o verniz estala e o orgulho alastra-se às paredes da casa como um jato de tinta, assim como o sofrimento, a humilhação e uma desonra digna das mais severas úlceras no estômago.

 

Um livro de enorme complexidade, apesar da leitura acessível, que resumidamente nos faz refletir sobre o quanto temível é a hipótese de sermos desagradáveis. O quão mais fácil e seguro é pintar sorrisos amarelos e, tudo isto, em prol de uma ideia muito disfuncional do amor. Mas esse não é o único dedo que o autor nos aponta.

 

Cada personagem, de alguma forma, parece amparar um determinado tipo de humilhação. Seja o silêncio de Nikolai pela traição do Princípe, a Natacha por um amor disfuncional em que deseja ser a salvadora e até mesmo Ivan, outrora noivo dela e que escolhe, mesmo rejeitado, ser seu fiel amigo. E depois, temos Nelly. Para mim, a personagem singular na compreensão da obra e que convida o leitor a olhar para o outro lado da moeda do sofrimento. Falo da compaixão e do autoperdão.

 

Nelly é uma criança, neta de Smith, cuja vida fora sempre pautada por constantes humilhações e ofensas. Como referia acima, todas estas personagens estão magistralmente interligadas e será esta criança, profundamente traumatizada, a iluminar o sofrimento de todos eles com um pouco de esperança e [auto] compaixão. Não me alongarei nesta parte porque acredito que o leitor mereça chegar aqui desprevenido, pronto a pensar pela sua própria cabeça. Gosto de acreditar nesta ideia como um dos maiores objetivos de Dostoievski: tornarmo-nos seres [cada vez mais] pensantes.

 

É neste momento que o autor aponta um segundo dedo para nos cutucar sobre o erro que é o de julgar prontamente o outro e, em reverso, nos pede a cortesia de ampliarmos o olhar à complexidade que reside no subsolo da nossa humanidade. Mais do que julgar, mais do que assumir uma postura de Princípe que tudo sabe, o autor apela, através da riqueza da personagem de Ivan Petrovitch, a sermos mais compassivos com o verbo errar e a não nos identificarmos para sempre com a ferida da humilhação. Como quem ousa aprender e percebe, num dado momento, a capacidade de fazer diferente.


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