A Lebre de Vatanen (A. Paasilinna)

 

“A Lebre de Vatanen”, de Arto Paasilinna, é um romance finlandês escrito em 1975. Nele o autor mistura, magistralmente, bons punhados de humor, sátira, o poder da natureza e, com tudo isto junto, cria um livro que nos pede uma profunda reflexão sobre liberdade.

 

Vataten é jornalista em Helsínquia. Num domingo de Junho, ao voltar do campo com o colega, este atropela uma lebre na estrada. Vatanen sai do carro, entra nos bosques em busca da lebre e é este o momento que marcará o princípio de uma história movida por um desejo tão maior: falo do desejo de, tão somente, nos sabermos livres.

 

É que Vatanen, pela lebre, largou tudo. No desejo de salvar o animal, a quem fez uma tala grosseira para lhe salvar a pata, também este homem correu ao encontro da sua própria cura. Embrenhar-se nos bosques significou a coragem de largar um casamento desigual, com uma mulher egoísta e estranha. O trabalho, esse, mais pesado do que chumbo, estava longe de lhe encher as medidas tão cobiçadas da autorrealização. A vida de Vatanen estava cansada e poeirenta e assim, num momento fugaz, compra também a esperança ao leitor mais desassossegado. Porquê?

 

Porque a vida é tão maior. Porque a vida pode ser tão maior. Porque quem ousa estar atento a sinais aparentemente irrelevantes pode estar mais perto de encontrar aquilo que realmente importa: a autenticidade de quem se é. É que isto de se assumir quem se é dá um trabalho enorme. Também cansa, mas, aqui, já é cansaço de quem sabe correr por gosto.

 

Eu adorei este livro. Um livro bonito e, acima de todas as coisas, escrito na mais profunda estranheza. Há momentos aqui verdadeiramente hilariantes. A Lebre, por si só, é uma das personagens mais estruturantes do livro, capaz de largar caganitas em lugares desordenados e provocar o maior caos às pessoas de alma passada a ferro. E nós, simbolicamente, quantas caganitas precisamos soltar para, finalmente mais leves, seguirmos caminho?

 

A partir do momento em que Vatanen entra naquele bosque, aos poucos, à distância do seu próprio pé, afasta-se cada vez mais da sua vida anterior. A Lebre torna-se companheira fiel, o amuleto da liberdade e da ousadia de desejar mais. A vida como [interna] aventura.

 

De uma forma muito simples, ornamentada pelas inúmeras e peculiares aventuras destes dois, o livro de Paasilinna é um lembrete que nos situa naquele desagrado de questionarmos o quanto andamos a vestir a vida feita à medida dos outros versus o desejo de a criarmos por nós mesmos. Quanto mais se afasta de uma vida convencional, mais Vatanen se aproxima de uma existência pautada pela liberdade e orientada pelo instinto.

 

Nas camadas mais profundas deste livro, para lá do requintado humor e profunda estranheza, encontramos a questão basilar que norteia toda a história: até que ponto a vida que andamos a vestir nos enche, totalmente, as medidas? O que será isso de vida normal, afinal?

 

Através de uma Lebre, símbolo de liberdade e, para Vatanen, sinónimo de recomeços, podemos deitar-nos confortavelmente naquele sábio clichê: precisamos de nos perder muitas vezes para muitas vezes também, nos voltarmos a encontrar. E lá à frente, um espelho. A confirmação – ou não – de uma vida feita à [nossa] medida.

 

A quem possa ver neste livro apenas um elogio ao hedonismo, peço para que pensem um pouco mais para lá disso. Este é um livro livre. Um livro estranho, muito divertido e profundamente libertador. Dizem que uma vida, para ser bem vivida, pede muitas vezes um recomeçar que, para muitos, é visto como possível desistência. Mas quem somos nós para o atestar com total certeza? De quantos recomeços não precisamos nós para que a vida, como um molde de alfaiate, nos comece a caber que nem uma luva?

 

Deixo o convite [e a ousadia] à reflexão.


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