O verão em que a minha mãe teve os olhos verdes (T. Tîbuleac)


De que nos fala este livro? Fala-nos do peso da dor da morte de uma criança no seio familiar e o impacto dessa dor naqueles que, à força de uma teimosia, insistem em viver.

 

Esta história narra, especialmente, as dores de Aleksy face ao alheamento da sua Mãe, após a morte da sua irmã. Em traços gerais, é um livro sobre família, morte, luto e alienação parental.

O tema, por si só, é muito belo. No entanto, na minha opinião, sinto que foi escrito como uma tremenda pressa e que, na sequência, acabou por empobrecê-lo drasticamente.

 

Aleksy escreve-nos a sua história no seguimento da sugestão do seu Psiquiatra. Hoje, homem adulto e pintor renomado, vive uma crise criativa. A escrita servirá para desbloquear essa criatividade submersa, enredada num passado muito particular e onde se centrará, especificamente, no último Verão que passou com a Mãe, numa pequena vila costeira no Norte de França.

 

Como disse, toda a arquitetura da história me parece muito bonita, aliada a vários simbolismos que, bem trabalhados, resultariam num livro memorável. Para mim, tal não aconteceu. É uma sensação particularmente peculiar: a de estar perante o esboço de um grande livro que, à falta de profundidade, fê-lo, metaforicamente falando, “morrer na praia”.

 

Creio que todos nós, de uma maneira ou de outra, conhecemos a dor específica que nasce no centro das famílias. As recordações de um tempo vivido, uma casa que pode ser também personagem viva, memórias do que foi, ilusões do que poderia ter sido e, na especificidade desta família narrada por Tatiana Tîbuleac, o peso bolorento da morte de uma criança. Uma dor tão forte que é como bolor a brotar das paredes, da loiça suja na pia, no pó acumulado de uma casa que, por mais que reclame, ninguém está preparado para lhe arejar o ar.

 

Após a leitura, senti que este livro beneficiaria de uma visão mais alargada das personagens e, por isso, dou comigo a imaginá-lo narrado, pelo menos, a três vozes: a Mãe dos olhos verdes, o Alesky e o Psiquiatra. Com um trabalho mais profundo, acredito na mesma medida que a voz de Mika, a irmã pequenina que morre, daria um estrondo adicional ao livro.

 

Se a ideia é perceber o impacto da dor da ausência materna na vida de um filho, além de mentiras subtis, porém visíveis, como não entrarmos na vida de uma mulher, uma Mãe, que perdeu a sua menina? Na mesma medida, como entender melhor o rapaz se os tempos narrativos são tão confusos que nem lhe atribuem mudanças de expressão, esperadas, face ao seu crescimento e maturidade? Não há, em momento algum, uma diferenciação na escrita do jovem enquanto adolescente e adulto. O livro acabou por me pedir muitas reflexões adicionais que me levaram a tentar compreender mais o jovem, como quem lhe dá um amparo extra. Dei comigo a pensar que, se calhar, a ideia seria a de passar essa imaturidade pela vida fora, como só uma ausência de Mãe faz? Talvez. Mas não sei, a dúvida ficou comigo.

 

Dentro dessas minhas dúvidas, tantas outras surgiram. Como gostaria de ter lido a voz do Psiquiatra, momentos de diálogo nas consultas, ir ao fundo da questão, perceber-lhe a dor, projeções, anseios, desamparos.

 

Depois, a figura da Mãe, uma personagem – para mim – com um potencial enorme de se tornar das mais inesquecíveis da Literatura. Uma mulher, segundo o filho, meia tonta, de bondade ímpar, incapaz de ver nos outros uma espécie de maldade condescendente com que a miram. Uma mulher, acima de todas as coisas, baça, gorda, quase feia. Porém, com uns olhos verdes capazes de compensarem tudo o resto. Só aqui, a simbologia da cor, do olhar, daria “pano para mangas” para convencer o leitor mais exigente, que precisa de mais. Como seria bonito concluirmos que o olhar daquela Mãe, afinal, vivia repleto de esperança, apesar das dores que a vida lhe foi entregando. Afinal de contas, o que tanto se imprime na beleza de ser Mãe que não seja uma esperança vitalícia? A esperança de que, para lá das tormentas, o mundo se organize e uma nova ordem se instale.

 

Com uma escrita que considerei muito enfraquecida, com frases – na minha opinião – não só pobres como tendencialmente exageradas e que, por isso mesmo, lhe roubaram a beleza, foi esta a sensação com que fiquei: um livro com enorme potencial, contudo, apressado.

 

E se há um lugar onde pressa não combina, é o lugar da maternidade. Porque, ao fim e ao cabo, é esse o tema central ressonante em cada uma das personagens, sentido na individualidade esperada de cada um e nesse brilho muito próprio de quem ousa olhar, de frente, as dores impostas por uma vida sempre tão criativa nessa arte de nos chocar.


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