“Quem viveu já um
dia conseguido? À partida, a maioria não hesitará talvez em afirmá-lo. Será,
pois, necessário continuar a perguntar. Queres dizer «conseguido» ou apenas
«belo»? É de um dia «conseguido» que falas, ou de um – igualmente raro, é
verdade – «despreocupado»? É para ti um dia que decorreu sem problemas já um
dia conseguido? Vês alguma diferença entre um dia feliz e o conseguido?”
O que será um dia conseguido?
É esta a pergunta que permeia este bonito ensaio de Peter Handke, Prémio Nobel
da Literatura em 2019.
Com uma questão
aparentemente simples, o autor discorre sobre o que será isso de viver bem um
dia, de o tornar realmente conseguido e as imensas distinções entre outras
tantas imensas possibilidades do que será, afinal, esse dia [tão] conseguido.
“Sim, o dia
conseguido não é para mim como os demais; ele significa-me mais. O dia
conseguido é mais.”
Naturalmente, fechado
este pequeno livro, abre-se espaço a um conjunto de interrogações muito
pessoais. Aquilo que para alguém é um dia conseguido, para outro talvez não o
seja. O autor aponta para diferentes perspetivas, tijolinhos distintos que,
juntos, podem dar forma a esse dia conseguido. Não apenas bom, bonito ou inesquecível:
conseguido.
Dei comigo a comparar
um dia conseguido, para mim, às mantas de retalhos. Um dia conseguido seria
assim feito de várias tonalidades, de muitos tons diferentes, de momentos fugazes
que nos prendem a atenção e que, por isso mesmo, se alastram e nos enchem o
peito daquela consciência de nos sabermos vivos e parte de uma história maior.
Um dia conseguido vai-se cosendo a pequenos retalhos de silêncio quando, lá
fora, o ruído é insuportável. Um pouco de linha a juntar o retalho da paz após
um dia de trabalho e a possibilidade de se abraçar uma árvore, pisar a relva ou
pegar numa gata ao colo. Um dia conseguido terá, certamente, retalhos de
conversas bonitas alinhavadas pelos melhores amigos e amparadas por lugares
conhecidos. É casa. É respirar fundo. É percebermo-nos gente no meio do caos
sem que este nos molde como plasticina. Um dia conseguido será, para mim, a
rebeldia de ousarmos viver em primeira mão, de corpo presente, alma ansiosa
pelo bom de hoje e do que virá. Um dia conseguido, numa súmula muito pessoal,
seria feito de vários retalhos de silêncios, memórias e propósitos. Uma manta
imensa de retalhos que, todos cosidos, representariam o expoente máximo que, à
ideia de um dia conseguido, se entrelaça uma outra: a ideia de que um dia
conseguido, para o ser, deixa de ser só sobre nós para se alastrar num
respeitável exercício de bondade partilhada.
“(…) Então porque
não se contentar com cada hora conseguida? Porque não simplificar, elevando o
instante a dia?”
Acabo sempre a
estacionar nessa ideia que me é muito estimada: a da beleza da simplicidade em
cada pequeno instante. Começar-se o dia com a lufada de ar fresco de uma janela
que se abre de par em par. Depois, terminar esse mesmo dia [conseguido] distraída
com os olhos azuis do Homem que escolhi amar, para lá dos dias.
E adormecer, confortável,
nessa manta que tudo soma.
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