O dicionário diz-me que
o medo pode ser entendido como um “estado emocional caraterizado por uma
sensação de inquietação, insegurança ou ansiedade que surge com a ideia de um
perigo real ou aparente, podendo assumir intensidade muito variável consoante
as circunstâncias e ser acompanhado de reações fisiológicas diversas”. Mas
nada disto me sossega. E é na minha própria ideia de medo, que vou respirando
num paradoxo estranho: medo é aquilo que nos tira o sossego. Medo talvez seja o
gatilho que nos ameaça a tão cobiçada paz. O medo como um pequeno poio de mosca
no topo de um bolo, em vez da cereja pomposa. O medo como algo despropositado, a
ocupar todos os espaços em branco, sempre a mais, um convidado de uma festa que
ninguém quer.
E, ainda assim, o quanto
o seu desconforto, essa constante ameaça de quem nos desafia o ritmo cardíaco,
nos obriga a enxergar a vida numa amplitude muito maior: como um limbo, um
abismo, algo que está entre o tudo e o nada. Entre experienciar ou evitar.
Entre calar ou ousar. Entre viver ou morrer em vida. O medo como um estranho
motor que ora nos puxa para trás e, no mesmo reflexo, nos faz ganhar balanço
para saltos maiores.
Em «Breves Notas Sobre
o Medo», Gonçalo M. Tavares reúne uma amálgama de pequenos textos que exploram
o medo como aragem fria de dezembro que se entranha nos ossos. É arrepio. É interrogação.
São os acasos bons da vida e que, quando acontecem, nos dão medo. É a suposta
vida invejável dos outros quando dos outros nada sabemos. É o medo de
envelhecer. É o medo de morrer. É o medo de se ser eleito. É o medo das
hipóteses. É o medo de estar errado. É o medo de estar certo. É o medo do
fracasso. É o medo do sucesso.
O medo que oscila, ora
acima ora abaixo, entre quem ousa e quem desiste. Uma espécie de caminho previsível,
com um mapa na mão para não se errar, até ao momento em que um pé desgovernado,
como a vida, nos faz tropeçar. O medo como a inconstância. A inconstância como
a única certeza de nos sabermos vivos.
O que será, afinal,
isto de viver sem temer?
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