CONTÉM
SPOILERS
O
que será que nos atesta a nossa Humanidade? De que será feita? Haverá um
punhado de ingredientes certos, medidos a rigor, que misturados, façam de nós
boa gente? E quando dizemos «boa gente» estamos, de facto, a dizer o quê? Estaremos
a invocar os dez mandamentos que, a bom rigor, temos na ponta da língua, fervorosamente
respeitados?
«A
Leste do Paraíso», de John Steinbeck, traz-nos uma saga familiar, percorrida
por várias gerações, e cujas vidas se vão tecendo pela força dos dias, com
ventos vindos, na maior parte das vezes, de um leste feito de questões. Aqui
impera um conjunto de personagens profundas, complexas, empurradas por esse
verbo que é «viver» e que pede, dia após dia, novas perguntas e uns pés firmes
na terra, prontos a porem-se a andar até encontrarem as respostas, a colheita
certa.
Apesar
de o livro ser considerado uma saga histórica, é igualmente tido como romance
de formação, neste caso, um conjunto de pessoas “em formação” e, todas elas,
nessa amálgama feita de crescimento psicológico, moral e sociais dos
protagonistas ao longo das suas vidas.
Abre-se
o livro e logo nas primeiras páginas percebemos que também o lugar – o Vale de
Salinas – assume-se como igual personagem. Assim nos conta Steinbeck, o próprio
narrador da história que decidiu contar a história da sua família materna. Como
neto de Samuel Hamilton, e dando largas à imaginação de quem não esteve lá,
desenha-nos uma história profunda em que o livre arbítrio se assume como
central. Mas já lá chegaremos.
O
lugar. A terra. Também ela conta uma história: delimitado pelas montanhas
Gabilan, “alegres e luminosas, ensolaradas e encantadoras”, a leste, e
pelas montanhas Santa Lucia, “escuras e melancólicas”, a oeste. Esta caracterização
inicial representa a terra a leste do Paraíso, para onde Adão e Eva foram após
serem expulsos do Jardim do Éden.
E
porquê este contexto? Steinbeck, através do retrato Bíblico da História de Abel
e Caim, desenhou uma história que, se só pudesse escolher apenas uma palavra,
diria que nos fala, sobretudo do poder pesado do ciúme: o primeiro menino a
nascer de Eva e Adão, Caim, foi também o primeiro assassino, a primeira manifestação
do mal, da qual, segundo consta, todos nós descendemos. A história bíblica
sublinha a negrito a luta constante entre o bem e o mal levando-nos,
desesperados, à necessidade de um Salvador, e eis que surge Cristo, o nosso
Deus como resposta. Quando Eva come o fruto e o Pecado Original se enraíza,
levando-os à expulsão do Jardim, o nascimento de Caim vem como confirmação de
uma consequência desse Pecado.
De
origem hebraica, «Abel» significa «sopro» ou «fôlego» num claro contraste com a
presença do irmão Caim, que apesar das diferentes conceções, aponta para um
significado relacionado com «posse». Nada destes pormenores serão ao acaso para
tudo o que acontece no livro de Steinbeck que, no contraste entre os irmãos, o
bom e o mau irmão, assume o ponto de partida para uma história que grita, que
invoca e que nos sufoca a alma de tanto refletirmos sobre o poder do livre
arbítrio, independentemente das agruras da vida e das sombras que a todos, sem exceção,
nos habitam.
Através
de duas famílias, os Trask e os Hamilton, Steinbeck cria um paralelismo com a
história bíblica através dos irmãos Charles e Adam (pormenor para a letra
inicial de cada um dos nomes, C de Caim, A de Abel) e na geração que se lhe seguirá
com os irmãos Caleb (Cal) e Aaron (novamente as mesmas letras iniciais).
À
semelhança do retrato bíblico, também Charles detestará Adam. À semelhança do
retrato bíblico, também as oferendas (e a eterna Devoção) serão o motivo de uma
discórdia sem precedentes, ativando um ciúme inexplicável, cujo desejo de matar
parece ser a única resposta possível. Instala o pecado (original) no seio de
uma família. É que quando Adam oferece um cão bebé ao pai Cyrus e Charles uma navalha,
fica fácil retrocedermos ao caminho da Bíblia para nos relembrarmos da ausência
de fé com que Caim levou oferendas a Deus, em contraste com um Abel devoto, o
pastor de ovelhas.
Charles
percebeu imediatamente a preferência do pai por Adam e eis que a semente do mal
se instala no coração deste ao ponto de, numa grande ironia, fruto de um
acidente de trabalho, ficar – para sempre – marcado com uma cicatriz (tal como
Caim). Assim como a marca, ficou para sempre a lembrança da carga de porrada
que deu a Adam, não o tendo matado por pouco.
Na
reminiscência de uma história que invoca o Pecado Original, não podemos
esquecer a Serpente, aqui, simbolizada por Cathy (Catherine Ames) que não só
traz o Diabo no corpo, como vê na maldade humana a única resposta possível. Cathy
mata os próprios pais e decide viver a vida como prostituta, carregando no
peito o pecado da carne. Quis a vida que, após alguns dos atos mais hediondos,
acabasse também ela quase morta com a tareia que Mr. Edwards, o homem que a
aceitou no seu negócio de prostituição, mas que o arruinou quando se apaixonou irremediavelmente
por ela.
Quando,
quase sem forças, Cathy encontra uma casa, será a dos irmãos Charles e Adam. No
reflexo da tareia que também aquele levou do irmão, incitar-lhe-á no coração
uma tal compaixão por Cathy que a distância entre essa dor e um amor que cresce
– também ele – como um Demónio, não será maior do que um mísero metro. Adam
apaixona-se irremediavelmente, cuida as feridas de Cathy sem, no entanto, se
livrar de uma cicatriz profunda (tal como Caim, tal como Charles), um Demónio
adormecido com dores, mas com um olho semiaberto à procura de uma saída fácil
aos seus tormentos. Casará com o “imbecil” do Adam, adormece-o com medicamentos
e a noite de núpcias será vivida com Charles, o homem que a detesta por nela se
ver, claramente, refletido. Ambos marcados. Dessa marca, desse pecado, nascerão
os gémeos Caleb e Aaron, gémeos dizigóticos, resultado de dois óvulos
fecundados por dois espermatozoides diferentes e que, num novo reflexo entre o
bem e o mal, o adorado e o rejeitado, Caleb será o moreno com rosto brusco,
como Charles, e Aaron, o loiro de pele branca, brilhante como um anjo. Como
Adam.
Cathy,
que de tudo fez para abortar, mas não tendo conseguido, após partir, sem dores,
sem rugidos, dá um tiro no braço de Adam e desaparece. A Serpente morde e Adam
vai definhando aos poucos, perdendo a esperança na vida, esquecendo os próprios
filhos, cujo amor conheceram apenas das mãos de Lee, o empregado devoto e uma
das personagens mais ricas do livro.
Este
bocado de história é o holofote da grande mensagem que, creio eu, Steinbeck
desejou transmitir: o peso da maldade e o quanto os Homens por se acreditarem
maus ou conspurcados, se resignam a isso mesmo. Para quê ousar diferente se se
nasce com a marca do pecado? Para quê ambicionar ser melhor se, à partida,
somos descendentes desse primeiro assassino? Como referia logo no primeiro parágrafo:
o que será que nos atesta a nossa Humanidade? De que será feita? Haverá um
punhado de ingredientes certos, medidos a rigor, que misturados, façam de nós
boa gente?
E eis que o centro da
história se nos revela através daquela que, para mim, é A palavra de
todo o livro: TIMSHEL. Será numa conversa entre Lee e Samuel Hamilton, o
amigo de Adam que o ajudou a construir a sua herdade e a procurar furos de
água, que ouviremos pela primeira vez o sentido da palavra, cuja compreensão
encontraremos em Génesis 4:7: “Se procederes bem, não serás aceite?
E, se não procederes bem, o pecado está à porta, à tua espera; o seu desejo é
dominar-te, mas tu deves dominá-lo." O personagem Lee explica que, em Génesis 4:7, Deus diz a
Caim que ele "pode" dominar o pecado, e não que "deve"
ou "dominarás". Para Steinbeck, essa diferença significa que o
ser humano tem liberdade de escolha: "tu podes".
Ergue-se
assim o tema central: a coexistência entre o bem e o mal e o poder da
Humanidade para escolher, para ser dono de si e saber-se capaz de dominar a sua
própria sombra, na esperança de si mesmo, na esperança pelos outros. Agarrado
ao tema que nos guia entre o bem e o mal, também o livre arbítrio, a família,
as heranças e a parentalidade (disfuncional), entram sem parcimónia em cada
canto da história. Podemos perceber ao longo das diferentes gerações, a força
da passagem do tempo e, acima de todas as coisas, o ciúme instaurado por pais
que, consciente ou inconscientemente apontam para um filho preferido (Abel,
Adam e Aaron). Dessa preferência, dessa devoção, como um vaso partido, a raiva
dos filhos preteridos são como estilhaços lançados ao vento, atacando tudo o
que vier pela frente. Dessa raiva interna, nasce a certeza de não se sentirem
redimidos o suficiente estando, então, condenados a uma sombra eterna.
É
este o grande ponto de viragem que Steinbeck deseja oferecer: a possibilidade
de redenção, a possibilidade de nos sabermos audazes e capazes de escolher,
internamente, a força pela qual nos desejamos unir, não fazendo da vida lá fora
o único Juiz que nos dita a felicidade ou a sua ausência. Nós também temos uma
palavra a dizer. Num dos finais, para mim, mais marcantes da literatura, o bem
não triunfa sobre o mal pois seria demasiado simplista, demasiado fácil. As personagens
principais da história sabem, de antemão, que o bem pode, sim, coexistir com o
mal. É essa a realidade da vida, do mundo, e todo o homem que foge dessa realidade
polarizada, é cobarde. Aaron é a clara personificação disso mesmo quando descobre
que a Mãe é prostituta e o facto de ter sido Cal a mostrar-lhe a verdade, originará
neste a certeza de ser pecador e assassino indireto do próprio irmão.
Eis
que, com a sabedoria de Lee e a força interna de Adam, entretanto um Pai que se
esforçou para lhe merecer o nome, quando olha para o filho, antes de morrer,
lança-lhe no coração a maior esperança de todas: timshel.
Tu
podes. Tu escolhes.
O
abraço de Abra confirmar-lhe-á isso mesmo, como uma aragem fresca feita dessa
liberdade de escolha. Um livro magnífico sobre o poder da esperança em nós,
comuns mortais. A esperança de que, para lá das sombras, também a luz de,
precisamente, nos sabermos pecadores, abre caminho ao mais importante: à
possibilidade de redenção. A cada segundo, a cada minuto, a cada momento.
"O
Senhor pôs um sinal em Caim, para que ninguém que o encontrasse ou matasse."
(Génesis
4:15)
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