CONTÉM SPOILERS
Sobre «Silas Marner», numa
carta, George Eliot escreveu: “Mas espero que não a considere uma história
triste como um todo, porque lança – ou pretende lançar – uma luz forte sobre as
influências benéficas das relações humanas naturais e puras.”
Publicado em 1861, este
é um romance breve, aparentemente simples, mas muito mais profundo para o
leitor atento. É, acima de todas as coisas, uma belíssima reflexão moral sobre a
importância das pessoas nas nossas vidas e o impacto da bondade como verdadeira
coragem.
Esta é a história de
Silas Marner, um tecelão que, logo nas primeiras páginas, viverá o desgosto de
se saber traído pelo melhor amigo, tendo sido injustamente acusado de roubo. Perdendo
a fé na humanidade, decide abandonar a sua terra natal e começa uma nova vida na
aldeia de Raveloe.
Nos quinze anos que se
seguem, Silas vive sozinho sob os olhares desconfiados dos vizinhos que não
entendem a sua solidão. No vazio de uma casa, há apenas um conforto emocional
que lhe preenche os dias: acumular dinheiro para, no sossego de mais um dia,
entreter-se a contar cada moeda.
Nada parece correr bem
a Silas. Será assaltado e até esse pequeno momento de uma alegria vã lhe é
tirado. O vazio existencial parece crescer a cada dia, adensando-se mais as
dores que não consegue calar e aceitando a vida como um fio de dias soltos, sem
sentido.
Dizem que há momentos
na vida em que a esperança mora perto de um abismo. Vamos olhando para ele, que
nos cativa a olhar mais, mas, a vida parece sempre mais poderosa para, no
momento certo, nos arrancar de lá. Será assim que Silas é arrancado ao vazio
das suas dores, precisamente no momento em que vê uma bebé, inesperadamente,
dentro de sua casa. Com uma história brindada pela tristeza e pela injustiça, a
mãe da bebé acabará morta na neve, depois de ter casado com um homem abastado
apenas na carteira e um pé rapado, cínico, no lugar do coração.
Nestes fios emaranhados
de tantas vidas, quis o destino que Silas adotasse a pequena criança, Eppie,
cuidando dela como um verdadeiro pai. A partir desse momento, é como uma nova
porta que se abre na pequena casa. Uma porta aberta e repleta de sol, de
esperança no futuro. A relação de pai e filha é maravilhosamente descrita pela
autora. A harmonia de uma família que cresce como raízes fortes dá a este homem
simples o grande propósito da sua vida.
Através da escrita tão característica
da autora e sempre com uma afinada complexidade psicológica das suas personagens,
o leitor tem a oportunidade de parar e refletir sobre o quanto a vida, por
maiores as ambições com que nos possa seduzir, se resume à grandeza de nos
sabermos gente nos fios que entrelaçamos com os outros. Será sempre a soma das
relações, dos amores trocados, dos afetos aprendidos, das vidas partilhadas,
dos elos para lá do sangue, que a vida se reveste de verdadeiro sentido. O
ponto mais alto da existência.
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