Em «O Enredo Conjugal», Jeffrey Eugenides traz-nos, não uma história romântica, mas antes uma erudita reflexão sobre o quanto as idealizações que nos ensinaram, quase nos podem matar com as dores de amar.
Com uma ironia aguçada
como só o autor sabe fazer, aqui revisitamos os modelos clássicos do amor e,
particularmente, do casamento como resposta. Seja a resposta final dos romances
vitorianos como fora deles, na vida comum de todos nós.
Não é à toa que Madeleine,
a personagem feminina da história dividida entre dois homens, Leonard e
Mitchell, dedica os seus estudos superiores à Literatura Inglesa, especialmente
a autoras como Jane Austen e George Eliot. Para quem leu “Middlemarch”, por
exemplo, conseguimos facilmente ligar os pensamentos de Madeleine e de Dorothea
Brooke: a necessidade de se emancipar intelectualmente a par, na mesma medida,
com o desejo de amar e de ser amada por um bom homem. Um amor que, para o ser,
tem de lhe espevitar a alma.
Pois bem, isto dá que
pensar: afinal, houvesse um exame de admissão, que precisaríamos nós para
estarmos certos sobre como amar, de facto, bem? Haverá fórmula?
A narrativa decorre nos
anos 80 durante a transição da universidade para a vida adulta. No centro deste
enredo temos, então, os três jovens num clássico triângulo amoroso que se
inicia como uma rampa de lançamento à exploração das relações afetivas ladeadas
na distância do que era antigamente e do quanto tal visão se tem transformado
nos dias atuais.
Para lá destes temas,
questões profundas sobre identidade, fé, religião, ambição e saúde mental, marcam
igualmente lugar como forma de intensificar, ainda mais, estas reflexões em
torno do poder que tendemos a atribuir ao amor. Especialmente a uma quase
loucura de idealizar um cenário difícil como desejável, a clássica ideia de um
amor sofrido como merecedor de ser vivido. E isso, sem rodeios e no abraço que
a minha profissão me dá (Psicologia), posso garantir que esse sim, é um claro
sinal de imaturidade emocional.
Naquela vã ideia dos
romances clássicos em que o casamento marca o desfecho do “felizes para sempre”
não olhando a quê nem a quem, Eugenides – maravilhoso – convida o leitor a
pensar nessas tais idealizações e o quanto, na maioria das vezes, nos transformamos
no desgraçado do Sísifo. Em nome do amor, carreguemos essa pedra redonda
ladeira acima para, num espanto imbecil, a vermos tombar montanha abaixo com todos
os nossos sonhos lá atrelados.
Eugenides, como um mestre
de xadrez, joga precisamente com essa tradição, lançando a bola para este mundo
moderno tão marcado pela liberdade individual, pelo crescimento pessoal e o
quanto essas românticas idealizações foram perdendo o lugar, foram perdendo
função. Mas eu fiquei com uma pergunta em mãos: será mesmo isso que se deseja?
Será que, na verdade, o desejo de amar profundamente se mantém tão enraizado ao
ponto de, inversamente, lhe escaparmos numa atitude muito de coach
motivacional “eu sou muito eu, eu basto-me”?
São estas as muitas
maravilhas de pegarmos num livro e dele extrairmos imensas reflexões. Dei
comigo a pensar nessa ambiguidade atual de amar e no carácter de Dorothea
Brooke, uma mulher de espírito muito livre e, ainda assim, capaz de amar sem
arnês porque sabe ter nela a certeza de si mesma. Como se vive hoje a certeza
de quem se é do que, como na maioria, pelo empurrão daquilo que os outros
fazem? Dá que pensar.
Este não é um livro
romântico, apesar de nos falar de histórias de amor. Porque mais do que o
romantismo de uma vã ilusão, Eugenides sublinha a contemporaneidade do sentir,
ou seja, amores menos idealizados, talvez mais focados, talvez mais
unilaterais. Podemos sempre iludir-nos defendendo a máxima de viver um amor
como solo rico à construção da nossa identidade, mas, vai na volta, esse solo
tem sementes feitas, pura e simplesmente, de um egoísmo sem par.
Um pouco a lembrar o
Homem de Negócios no «Principezinho», que passa o tempo a contar estrelas, a
tentar ser-lhe dono, mas quando aquele lhe pergunta o «porquê» tudo se resume
ao vácuo estranho de um «não sei».
Para mim, talvez seja
essa a maior crítica do autor: as polaridades de um passado muito passado e um
futuro muito desgovernado de afetos, feitos apenas e só para se acumularem, como
quem conta estrelas não para os outros, mas para brilhar por conta própria.
Mais uma excelente análise,parabéns Denise! Respondendo a pergunta, ao meu ver, o que a maioria deseja é apenas satisfazer os seus desejos,sem se interessar verdadeiramente pela outra pessoa, ficando a léguas do significado amar.
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