COM
SPOILERS
George Eliot, pseudónimo
de Mary Anne Evans, criou este lugar fictício de nome «Middlemarch», no interior
da Inglaterra, para revelar um profundo estudo da vida da província. Aliás, aos
leitores atentos, o subtítulo não passará despercebido. Perante este, dei
comigo a pensar num enorme novelo de lã, desordenado, mas ligado entre si pela
confusão de fios a precisar, com urgência, de uma nova ordem. Assim é com as
personagens tecidas aqui pela autora.
Situada no final do Período
Georgiano na Inglaterra, esta história e as suas personagens vivem no ambiente
fortemente marcado pela Revolução Industrial. Tudo começa com a partida das
irmãs órfãs, Dorothea e Celia Brooke, para Tipton Grange onde irão viver,
agora, com o seu tio Mr. Brooke, homem tranquilo e dedicado. Na verdade, tudo
começa com Dorothea.
Dorothea, mulher forte
e sensata, sonha deixar uma marca no mundo. Para esta mulher, há muito mais na
vida do que o contrato de um casamento e a devoção, inconsciente, a algo sem
nome. Ela quer mais, ambiciona mais. Sendo mulher, numa época daquelas, a única
forma de se aproximar das suas intenções, seria através da presença de um
homem. Apesar de Sir James Chettam se perder de amores por ela, esta opta por
não perceber dado que a erudição daquele muito ficava a desejar. É em Edward
Casaubon, clérigo anglicano e estudioso obsessivo, conhecido sobretudo por
estar a trabalhar há anos numa obra ambiciosa chamada “Chave para Todas
as Mitologias”, que Dorothea encontra as suas respostas. Será esse encanto pela
erudição que tecerá o primeiro fio neste estudo feito de pessoas da província:
muito mais velho do que ela, e para um espanto quase horrorizado de todos, incluindo
do seu tio, Dorothea aceita o pedido de casamento.
Dizem que os romances, na
sua maioria, se iniciam num som idêntico ao repenicar de passarinhos, sons
sublimes, gestos ternos, mas nada disso se passará na vida de Dorothea.
Rapidamente perceberá que casou com um cobarde escondido numa aparente erudição.
No fundo, estamos perante um homem enfraquecido a todos os níveis, a começar
pela sua duvidosa intelectualidade, mas, pior ainda, pela fraqueza da alma,
como raramente se encontra na Literatura deste período.
Como quase uma Santa
Teresa, Dorothea acolhe no silêncio toda a dor de uma ambição não cumprida, sucumbindo
aos dias iguais, na solidão da sua biblioteca. Mas quer a vida, esse tal novelo
de lã, que novos fios se vão tecendo, aqui e acolá, nem sempre desde logo para
se unirem num nó definitivo, mas já numa sólida esperança do que poderá vir. Esse
fio meio solto, meio feito, verá o leitor quando o primo de Casaubon, Will
Ladislaw cruza o caminho de Dorothea, ainda antes do seu casamento e pouco
depois, em Itália, aquando da sua Lua de Mel. São os fios da vida a alinhar
pessoas. Mas não nos adiantemos.
Se Sir James Chettam
quase sucumbira perante a notícia da união de Dorothea a tamanho velho
ridículo, Casaubon, depressa se verá forçado a encarar a realidade. Novos fios,
fruto das circunstâncias e da vida sempre ardilosa, depressa se tecerão de
forma a ver em Celia o seu destino, casando com ela e tornando-se, assim, o
grande amigo e cunhado de Dorothea.
Sussurros que serpenteiam
todos os lugares parece ser característica fulcral de uma província que se
digne de tal nome. Não será de admirar quando o Doutor Tertius Lydgate chega a
Middlemarch cheio de novas e revolucionárias ideias na área da Medicina. Os sussurros
vão-se ampliando, as fofocas ganham força e dimensão, explodindo num coro admirado
quando o Médico, perdido de amores, se divorcia da sua estimada liberdade, para
casar com a linda e mimada Rosamond Vincy.
Da família desta, os
Vincy, também a autora nos afasta a ponta de uma cortina para explicar, nesse
minucioso estudo, o exemplo de um jovem preguiçoso: estuda, mas não o quer fazer,
sendo mais prazeroso gastar o dinheiro do pai a seu bel-prazer. A certeza de
uma herança do carrancudo velho Peter Featherstone fá-lo viver nessa doce
ociosidade. Contudo, a vida tem outros planos para ele e Fred Vincy será uma
das personagens mais meticulosamente construídas, cujo amor por Mary Garth irá
desenhar-lhe um destino muito afastado do que qualquer leitor, numa primeira
impressão, lhe apostaria.
Os fios vão-se adensando,
bem como os sussurros se vão espalhando pela força que só um segredo contém. A
chegada de John Raffles fará tremer o mundo do ambicioso Bulstrode que, por sua
vez, tem nas mãos os fios que o ligam a Will Ladislaw. Se com fios de lã se
podem criar os mais bonitos laços, na mesma medida, fios também podem
estrangular. Assim ficarão as esperanças de Will Ladislaw em permanecer em
Middlemarch, estranguladas. Os segredos brotam aqui mais como espinhos do que
como rosas e para lá do túmulo, também outros fios parecem querer agarrar-se à
vida, quando do testamento de Casaubon nascem barreiras que lhe impossibilitam
dar forma ao amor que tem, e sempre teve, por Dorothea.
Também esta viverá a
dor de não se saber respeitada e será este o momento da história em que lhe
conheceremos, mais ainda, a fortaleza de um carácter muito raro, não só construído
pela retidão e correção como, também, por uma profunda bondade e empatia.
Fios, fios e mais fios.
Assim a autora nos tece uma história que sublinha, magistralmente, o impacto de
cada um de nós na vida dos outros e o quanto a vida dos outros, de alguma
forma, se vai tecendo com a nossa. Depois de mais de oitocentas páginas, fica
desde logo uma saudade ternurenta de quem ali vive, especialmente de Dorothea.
Por muito preconcebida que fosse a ideia que ambicionava em deixar uma marca no
mundo, a vida mostrou-lhe que não são, afinal, necessários grandes gestos para
tal, basta ser Pessoa. E ela foi-o como ninguém, ousando seguir uma rota
completamente oposta ao que seria esperado e, precisamente pela retidão de quem
se assume responsável pelas suas escolhas, e pelo seu amor, também outros
poderão respirar fundo e ver a vida com novas esperanças. Como fios emaranhados
que, no poder de muitas mãos, voltam a ganhar a ordem dos dias.
Com uma escrita
absolutamente notável, George Eliot acrescenta-lhe ainda mais fulgor pela
crítica social sublinhada por uma ironia afiada com que desenha cada uma destas
pessoas. Assim, nesse emaranhado de fios, de pessoas, a vida acontece e
desabrocha na medida de vontades próprias, vontades alheias e um destino alinhado,
queremos nós acreditar, à proporção da bondade dos corações.
"E contudo o seu espírito admiravelmente desenhado produziu admiráveis efeitos, ainda que não largamente visíveis. A sua natureza plena, como esse rio cuja força Ciro quebrou, derramou-se por canais que não têm na terra nomes gloriosos. Mas o efeito do seu ser sobre os que a rodeavam teve um alcance incalculável: porque a multiplicação do bem no mundo depende em parte de actos que não são históricos; e se, tanto para o leitor como para mim, as coisas não são tão más como seria possível que tivessem sido, devemo-lo em boa medida àqueles que viveram fielmente uma vida desconhecida, e que repousam em sepulturas que não visitamos."
Dos melhores Clássicos
da Literatura que já tive a oportunidade de ler.
Dos livros que ficarão para sempre.
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