Desfile de Primavera (R. Yates)


RELEITURA 10 ANOS DEPOIS

Ler Richard Yates é a certeza de nos depararmos com a realidade nua e crua da vida, com os seus caminhos ardilosos, por vezes irónicos, tantas vezes redundantes. Os seus livros são assim, contêm a vida inteira desenhada por uma escrita sem adornos e que, em pouco, tudo nos diz.


Regressei à leitura de «Desfile de Primavera», dez anos depois, dando por mim a pensar em como os caminhos destas duas irmãs, Sarah e Emily, apesar de tão distintos, as conduzem a um lugar comum.


Ambas vivem a mesma dor, iniciada na infância com o divórcio dos pais e uma relação muito disfuncional com a mãe. Ao longo de quarenta anos, acompanhamos as decisões de ambas na ânsia de encontrar alguma paz. A beleza do livro, para mim, vive nessas polaridades entre as irmãs. Se por um lado Sarah opta por uma vida de casada, digna de um desfile de Primavera, com direito a fotografias para a posteridade, tendo filhos e desenhando a família que sempre ambicionou, por outro, temos Emily, a mulher independente que escolhe a liberdade de amar muito e mal, de conduzir a própria vida pelas suas mãos.


Assim, a estabilidade de Sarah e a inquietação de Emily, desenham uma das histórias mais bonitas de Richard Yates, frequentemente apontada como a grande obra do autor, a par de «Revolutionary Road».


Como dizia acima, esta história fez-me pensar nos caminhos distintos escolhidos pelas irmãs e que, de algum modo, as levam ao mesmo lugar comum. Esse lugar comum tem o nome de um sofrimento sem prazo de validade.


Para Sarah, a compensação da dor do divórcio dos pais cristalizou-se na criação da sua própria família, mas o peso de uma dor não resolvida mostrou-se na fragilidade de um casamento que, afinal, de real pouco tinha. Haverá a bebida como quem distrai o presente que insiste em interrogar ao passado o que poderia ter sido se. Um «se» tão grande como as metástases que se alastram para lá de um fígado embebido em álcool.


Para Emily, que seguiu o caminho oposto, longe do casamento e das vidas ordenadas, a vida acabou por devolvê-la à dor antiga de uma casa em ruínas e na procura desenfreada do amor como resposta. Mas resposta a quê, afinal?


Se há coisa que conseguimos perceber e que o autor reforça de forma brilhante que não só não há vidas normais como, na mesma medida, não há tentativas iguais de superar a dor imposta. Há um eco persistente em como a dor de um passado, continua a reverberar em duas meninas que se tornam mulheres sempre a ele atreladas.


Um livro que obriga a refletir sobre escolhas falhadas, ironias da vida, o peso de um passado que continua por digerir e, por fim, a mágoa bolorenta daquilo que poderia ter sido.

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