Contém Spoilers
Quando Arturo chega a
Los Angeles, traz na bagagem mais sonhos do que roupa. Sempre no limiar da
pobreza, envaidece-se por ter conseguido a publicação de um pequeno conto numa
revista. O ego de pavão sobe-lhe peito acima, a vaidade tão típica de um miúdo feito
solidão.
O sonho de ser escritor
cresce à medida do tempo e nessa mesma medida, crescem também as dificuldades
que não o deixam inspirar-se na criação de um livro ou de outro conto, que seja.
Restam-lhe laranjas para que o corpo continue a erguer-se. Há dinheiro
emprestado e a tentativa de lho trocarem por um pouco de leite. Mas Arturo
precisa mesmo é de dinheiro.
A vida de Arturo não é fácil
e nesse reflexo, ele sente estar no caminho certo. Afinal, os grandes em
qualquer coisa nesta vida sempre foram desafiados a comer o pão que o Diabo
amassou. Arturo está preparado para tudo, tem a força de um sonho maior e mais
pesado do que ele.
Num desses dias
pautados pela inércia e pela ausência de uma ideia, de uma história, entra num
café e conhecerá a mulher que lhe mudará a rota: Camilla Lopez. É ela quem lhe
serve um café pouco saboroso e escreve-se assim o princípio de uma das relações
mais conturbadas da Literatura.
Camilla é o espelho de
um medo que Arturo não quer enfrentar: o seu antigo medo de amar. Quando o medo
impera, impera também uma negação feita raiz. Nesse enraizamento de uma certeza
de que o amor é traiçoeiro, opta antes por rebaixar Camilla até à exaustão. Do
lado de lá encontrará nela essa bola de arremesso bem direta à sua cara. Não é
mulher de calar, nem de ficar.
Num turbilhão que só os
amores deslocados são feitos, ambos deambulam pela vida feita pontos de
interrogação. Na ausência do seu carinho, Arturo direciona o seu amor ferido à
única certeza que não o abandona: tornar-se-á num escritor famoso. O amor nem
sempre corresponde e, tantas vezes, é essa ausência que mais o faz medrar. A
vontade de se contrariar é tanta que Arturo acabará a amar Vera, uma mulher feita
carência, e a vida, tão irónica, dá-lhe como consequência um tremor de terra
tal que só pode ser Deus a apontar-lhe o dedo e a abanar a cabeça num resignado
gesto de condenação.
Camilla parece amar
outro homem e afunda-se numa vida de drogas. Arturo só a quer salvar. Ele sabe
que é um homem bondoso, iludido nessa ideia para correr atrás, admitindo aqui e
além que, se calhar, a ama. Mas se calhar, não. Talvez sim, mas no fundo, só quer
ser um bom homem. Promete que no dia seguinte jamais quererá saber dela, mas os
dias seguintes são sempre mentirosos e trazem com eles a ânsia, sempre a ânsia,
de correr atrás dela.
A vida de Arturo Bandini
parece desenhada a carvão, pó espalhado em cada folha que vive e que escreve. Em
«Pergunte ao Pó» confirma-se um rapaz perdido em si mesmo, feito ferida,
enquanto se procura através de alguma coisa que lhe confirme a certeza de se
poder sentir vivo.
O amor aparece-lhe com
três pancadas na porta e com outras três, desaparece-lhe lá nos confins de um
deserto. Um deserto que abraçou Camilla para nunca mais se ver. Será nesse
momento, quando o sonho de se tornar escritor realmente acontece, que o
simbolismo de quem atira, a esse deserto, a sua obra prima, que percebemos a
força [contrária] que realmente move Arturo Bandini.
“(…) Lancei o livro
pelo ar, com toda a força, na direção que ela tinha tomado. Depois, meti-me no
carro, liguei o motor e regressei a Los Angeles.”
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