Pergunta ao Pó (John Fante)


Contém Spoilers


Quando Arturo chega a Los Angeles, traz na bagagem mais sonhos do que roupa. Sempre no limiar da pobreza, envaidece-se por ter conseguido a publicação de um pequeno conto numa revista. O ego de pavão sobe-lhe peito acima, a vaidade tão típica de um miúdo feito solidão.

 

O sonho de ser escritor cresce à medida do tempo e nessa mesma medida, crescem também as dificuldades que não o deixam inspirar-se na criação de um livro ou de outro conto, que seja. Restam-lhe laranjas para que o corpo continue a erguer-se. Há dinheiro emprestado e a tentativa de lho trocarem por um pouco de leite. Mas Arturo precisa mesmo é de dinheiro.

 

A vida de Arturo não é fácil e nesse reflexo, ele sente estar no caminho certo. Afinal, os grandes em qualquer coisa nesta vida sempre foram desafiados a comer o pão que o Diabo amassou. Arturo está preparado para tudo, tem a força de um sonho maior e mais pesado do que ele.

 

Num desses dias pautados pela inércia e pela ausência de uma ideia, de uma história, entra num café e conhecerá a mulher que lhe mudará a rota: Camilla Lopez. É ela quem lhe serve um café pouco saboroso e escreve-se assim o princípio de uma das relações mais conturbadas da Literatura.

 

Camilla é o espelho de um medo que Arturo não quer enfrentar: o seu antigo medo de amar. Quando o medo impera, impera também uma negação feita raiz. Nesse enraizamento de uma certeza de que o amor é traiçoeiro, opta antes por rebaixar Camilla até à exaustão. Do lado de lá encontrará nela essa bola de arremesso bem direta à sua cara. Não é mulher de calar, nem de ficar.

 

Num turbilhão que só os amores deslocados são feitos, ambos deambulam pela vida feita pontos de interrogação. Na ausência do seu carinho, Arturo direciona o seu amor ferido à única certeza que não o abandona: tornar-se-á num escritor famoso. O amor nem sempre corresponde e, tantas vezes, é essa ausência que mais o faz medrar. A vontade de se contrariar é tanta que Arturo acabará a amar Vera, uma mulher feita carência, e a vida, tão irónica, dá-lhe como consequência um tremor de terra tal que só pode ser Deus a apontar-lhe o dedo e a abanar a cabeça num resignado gesto de condenação.

 

Camilla parece amar outro homem e afunda-se numa vida de drogas. Arturo só a quer salvar. Ele sabe que é um homem bondoso, iludido nessa ideia para correr atrás, admitindo aqui e além que, se calhar, a ama. Mas se calhar, não. Talvez sim, mas no fundo, só quer ser um bom homem. Promete que no dia seguinte jamais quererá saber dela, mas os dias seguintes são sempre mentirosos e trazem com eles a ânsia, sempre a ânsia, de correr atrás dela.

 

A vida de Arturo Bandini parece desenhada a carvão, pó espalhado em cada folha que vive e que escreve. Em «Pergunte ao Pó» confirma-se um rapaz perdido em si mesmo, feito ferida, enquanto se procura através de alguma coisa que lhe confirme a certeza de se poder sentir vivo.


O amor aparece-lhe com três pancadas na porta e com outras três, desaparece-lhe lá nos confins de um deserto. Um deserto que abraçou Camilla para nunca mais se ver. Será nesse momento, quando o sonho de se tornar escritor realmente acontece, que o simbolismo de quem atira, a esse deserto, a sua obra prima, que percebemos a força [contrária] que realmente move Arturo Bandini.

 

“(…) Lancei o livro pelo ar, com toda a força, na direção que ela tinha tomado. Depois, meti-me no carro, liguei o motor e regressei a Los Angeles.”


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