Estrada para Los Angeles (J. Fante)


Contém Spoilers

 

Com Arturo Bandini, John Fante criou uma das personagens mais icónicas da Literatura, construída à mão de um autor – como diria Bukowski – sem medo das emoções.

Neste que é o segundo livro do «Quarteto Bandini», temos um Arturo com 18 anos, e após a morte do seu pai, está agora a viver com a Mãe e a irmã, Mona, no Colorado.

 

Há um ponto aqui que me intrigou: no primeiro livro, não há nenhuma irmã e os irmãos antes referidos, nunca aparecerão na história. De engano ou distração do autor, não sei dizer, mas prefiro acreditar na intenção deliberada como quem comprova o quanto Arturo deambula, fantasia e cria cenários tão astutos para a sua própria vida como fora dela.

 

Se há fase na vida pautada pela imaginação, pelo abstrato na arte de pensar, é a adolescência. Este livro retrata esta fase da forma mais bonita, mais crua e real. Arturo sente-se perdido em si mesmo, no sonho de ser escritor e na certeza de que ninguém o compreende. Certo da sua intenção e tão forte sonho em se tornar escritor, passa horas do dia na Biblioteca a ler os autores mais renomados e difíceis. Entender, entende pouco, mas daí nasce-lhe um discurso forçosamente erudito para provar a quem o ouve que sabe falar mesmo quando, nem ele próprio, sabe o que está a dizer. Mas soa bem e isso é que importa.

 

Se o início da história é marcado pela perda de Rosa e pela traição do Pai, também aqui, na sua continuidade, se mantêm as feridas geracionais e o impacto destas na vida do nosso Arturo. É que ele, mesmo negando a si mesmo, tem medo de amar. Mulheres parecem fadadas a andar de mãos dadas com problemas e dores de cabeça. Ele, na ilusão de se ter como homem da casa, ignorando a ajuda do tio à família, sente na mãe e na irmã, dois empecilhos gigantes que não só não percebem a sua genialidade como, para piorar ainda mais, o diminuem.

 

Encontra refúgio nas revistas com mulheres nuas e através da prontidão de um papel, que nada pede ou exige, aprende a amar cada traço, cada particularidade daquelas mulheres belas e silenciosas. É um amor seguro para Arturo, mas nem assim, relembrando feridas do passado e aquele temor a Deus incutido pela Mãe, amará em sossego. Há sempre a sombra do pecado a correr atrás dele, o coração incha-lhe no peito, a preocupação estala-lhe na cara e ele morde os dedos, como quem foge da dor correndo ao seu encontro.

 

Num paradoxo de duas pernas, temos este adolescente a experienciar a vida. Não gosta da arquitetura injusta da sociedade onde o trabalho é flor que não se cheira. E quis o destino, uma vez mais certeiro numa ironia que até dói, fazê-lo tropeçar na Fábrica de conservas em que o cheiro a peixe se lhe entranha não só nas roupas ou no corpo, mas na alma. Eis que os sonhos e a imaginação mais do que fértil lhe voltam a valer: perde-se na ideia doce de ser escritor, rebaixando os colegas que, com ternura, quase lhe passam a mão nos cabelos. Arturo é um grande escritor que caiu ali por puro engano. Na verdade, está apenas a recolher material para um novo livro. O livro.

 

E é assim, em constantes deambulações que vamos conhecendo melhor a crise existencial deste jovem, os medos, os anseios, os sonhos. Haverá um dia em que o sonho de escrever se materializa e um livro ganha forma. A ansiedade de se saber reconhecido vai levá-lo a considerar a opinião das mulheres da casa. Mona ridiculariza-o sem dó. A Mãe, como tal, mente para proteger. Será aqui que algo de muito elementar acontece: Arturo não só percebe a mediocridade do livro como entenderá que num ambiente pautado por mulheres e numa família que não o compreende, um bom livro jamais poderá nascer.

 

É assim que decide, quase num piscar de olhos e depois de um acesso de raiva que o fez destruir os vestidos de Mona, ir embora. Arturo Bandini vai embora. Decide largar os ambientes hostis que lhe ofuscam o brilho de uma fama que ainda não se vê, mas que ele sabe estar lá.

 

Arturo Bandini larga tudo, vai embora.

É assim que dá o primeiro passo nessa estrada para Los Angeles.

Uma nova aventura está prestes a começar.


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