As Lojas de Canela (B. Schulz)


Bruno Schulz, um escritor muito famoso e reconhecido na Polónia, mas que, infelizmente, é pouco conhecido no resto do mundo. Nasceu na cidade de Drohobych em 1892. Além do seu trabalho na escrita, estudou Arquitetura e foi professor de Desenho, sendo detentor de inúmeras ilustrações muito singulares, muito próprias. No eclodir da II Guerra Mundial, defende-se na sua história de que era protegido por um oficial da Gestapo que admirava os seus desenhos. Acabaria por ser brutalmente assassinado com um tiro na cabeça por um oficial alemão, segundo consta, um rival do seu protetor. Tinha 50 anos quando faleceu, em 1942.

 

Considerado um dos grandes autores da Literatura Polonesa, este livro foi escrito com grandes pinceladas autobiográficas. Com uma imaginação muito fértil e igualmente peculiar, acompanhamos cada capítulo, ou cada conto, como fragmentos de memória de um menino sobre a sua infância. É difícil, quase impossível, catalogar este livro numa gaveta certa e única. O próprio autor defendia mais o valor da estética do que, propriamente, o seu conteúdo. A verdade é uma só: neste pequeno livro encontrei algumas das frases mais bonitas alguma vez escritas. Frases feitas de palavras que parecem comboios apressados. Somos obrigados a travar a ânsia dos olhos por mais beleza, voltar atrás, ler e reler: sucumbirmos a essa beleza muito ímpar.

 

“Nas manhãs de luz, Adela voltava abrasada como Pomona, regressava do esplendor do dia e despejava o cesto com todas as belezas coloridas do sol. Começava pelas cerejas brilhantes, inchadas de água sob a pele fina e transparente, as misteriosas ginjas negras com um sabor que não cumpria todas as promessas do cheiro, os damascos de polpa dourada onde dormitavam tardes longas e abrasadoras; (…) pura poesia dos frutos. (…)”

 

Como dizia acima, um livro com grande força autobiográfica em que o tema basilar da figura de um pai doente aos olhos do seu filho, ganha destaque, assim como as lojas, o comércio e o encanto dessas mesmas lojas no seu imaginário. As cores. A eletricidade. Tantas coisas bonitas.

 

Através de vários contos interligados, ou capítulos, não sei bem dizer, acompanhamos esses fragmentos de memórias numa narrativa nada fluente. É como a vida e as suas surpresas. Ora a vivemos no passado, voltamos ao presente ou sentamo-nos num futuro que ainda não chegou. Assim são esses fragmentos e esses fluxos de pensamento: o menino fala-nos do passado, do presente e o leitor, se desatento, vai perder-se em tamanha deambulação.

 

Não é um livro de leitura fácil, mas a beleza da sua escrita compensa a necessidade de qualquer esforço adicional, especialmente nessa linha de tempo desarrumada, acredito que intencionalmente. É que nesta história, o pai do menino está doente, está perdido, depois volta a si mesmo para se perder novamente. Há pássaros. Há uma metamorfose tão intensa que, quando dá por si, o pai é agora uma barata. Para os que, como eu, são grandes admiradoras de Kafka, fica fácil de prever o quanto a escrita de Bruno Schulz nos remete para aquele escritor.

 

Com o realismo fantástico como estilo narrativo presente, «As Lojas de Canela» sublinham a beleza magistral da escrita do autor, bem como a riqueza inesgotável de uma memória que nos leva por labirintos sobrenaturais, irreais, oníricos, de mãos dadas com a inocência – e esperança – da infância de um menino que ousou respeitar a doença e a loucura de um Pai.

 

Um livro que nos escreve a família, a dor da perda, a solidão e a imaginação como religião, que é amparo de todos os dias, de todas as horas.


Nota: Aconselho vivamente a espreitar o trabalho da ilustradora Ofra Amit sobre a vida do autor. São ilustrações belíssimas.


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