Ecrãs: um desastre sanitário (S.Mouton)


Servane Mouton, com o livro “Ecrãs: um desastre sanitário”, vem apelar para a problemática do tempo de ecrã na vida das nossas crianças e adolescentes (e adultos!). Na qualidade de Psicóloga Educacional, este é um dos temas que mais me preocupa. Sabemos que a Internet veio para ficar. Pelo lado bom e funcional que tem não podemos, no entanto, desviar os olhos como quem escolhe não prestar atenção, aos malefícios diretos e muito mais intensos nas camadas mais jovens.

 

Com base nisto, a autora divide a problemática e convida-nos a enxergá-la sob diferentes ângulos como, por exemplo, o impacto na saúde, economia e meio ambiente, a regulamentação e, por último, o abalo sentido no campo da educação. Mas não só.

 

Vou começar pelo último: a educação. Na minha prática clínica, especialmente com crianças pequenas (entre 6-8 anos de idade), começo a perceber um declínio significativo nos processos de aprendizagem, motivação e resistência à frustração, esta, praticamente nula. Outro fator muito gritante é a linguagem em si: meninos e meninas incapazes de dizerem “eu preocupo-me com isto” ou “eu sinto-me bem hoje”. A língua foge-lhes para um português do brasil, optando mais prontamente por um “me preocupo muito” ou “me sinto muito chateada” o que, claramente, reflete horas em frente a um ecrã a consumir conteúdo brasileiro. E este é apenas um subtil levantar de uma cortina que nos distrai de tantas outras questões que merecem atenção.

 

E por falar em atenção, onde anda? Segundo a autora, ainda neste campo da educação, vive-se uma cada vez maior dificuldade em manter o foco, uma atenção muito adoentada, dispersa, que incapacita – naturalmente – um bom processo de aprendizagem, consolidação de matérias e o amor à aprendizagem contínua e mais individual. Sobre esta questão, o também francês Maxime Rovere traz-nos, em “A escola da vida, uma analogia perfeita para o verdadeiro conceito da aprendizagem: imagine um pedaço de madeira com aquelas típicas brechas do corte. Essas brechas são o espaço entre o professor e o aluno que, na relação dinâmica de uma sala de aula, promove que tais brechas sejam preenchidas entre o “dar” do professor, do “receber” do aluno e a soma de ambos, para ambos. Imagem bonita, concorda?

 

Como poderemos nós ambicionar a esse nível de beleza de um processo de aprendizagem quando temos crianças, desde os 2 anos até, completamente agarrados a ecrãs opacos, tão lisos, tão quadrados? Como poderemos nós encantar os miúdos para a beleza - e riqueza - de aprender com a vida, com as suas formas, com as texturas, com os cheiros, com as visões, os sonhos e os desencantamentos?

 

[Deixo a questão no ar]

 

Muito se fala nas vantagens da tecnologia na educação e aqui a autora é frontal em afirmar que as teorias que o defendem não são, afinal, tão coesas assim. Acompanho adolescentes que defendem aprender muitas estratégias com os videojogos. Já muitos estudiosos o apontaram também, contudo, Mouton, sobre isso, destaca: “Se a prática de videojogos de acção pode melhorar as capacidades de atenção espácio-visuais, não nos regozijemos demasiado: não está provado que esse ganho seja transponível para tarefas diferentes das exercidas durante a prática do jogo. Por outras palavras: ter progredidos na detecção de zombies não confere melhor concentração nas aulas de Matemática nem durante o estudo para os exames de ensino básico.”

 

Às vezes pergunto-me se as vantagens apontadas da tecnologia à educação superam os impactos, ainda pouco estudados, ao nível da saúde num todo. Desde problemas na visão que, segundo a autora, “Assiste-se a uma epidemia mundial de miopia.(…)”, com os jogos as crianças acabam – na sequência – por passar muito mais tempo em locais fechados não beneficiando a sua visão que, para um bom desenvolvimento, carece de pelo menos duas horas por dia à luz natural. Apesar de ainda não se conhecerem os efeitos a longo prazo de uma exposição regular e repetida a este tipo de luz, acredito que aqui assenta bem a máxima do adágio popular: vale mais prevenir do que remediar (especialmente em crianças pequeninas).

 

Além do impacto na saúde ocular, também o sono, o desenvolvimento neurológico e socioemocional estão a viver nas ruas da amargura. As crianças andam cansadas. Chegam-me ao consultório a bocejar, queixam-se que não têm tempo para nada, que só desejavam um dia inteiro para descansar (entenda-se, em muitos casos, colados ao ecrã a jogar). Parecem adultos apressados em ponto pequenino em busca de algo que lhe tape um vazio qualquer. Isto é muito preocupante.

 

Nessa onda de preocupação, também a autora sublinha a necessidade de regulamentação mais apertada, um estudo amplo e sério sobre práticas mais saudáveis. Um dos pontos mais relevantes para mim é adotado pela autora quando diz: “O princípio de precaução deve ser aplicado. A exequibilidade não implica a obrigação de fazer. Nem tudo o que é digitalizável tem de o ser.”

 

Nesta ponte, sublinho um alerta que a autora nos deixa sobre a saúde mental, cada vez mais deteriorada nos jovens apontando para casos cada vez mais sólidos de depressão, ideação suicida, auto-dano, ansiedade e tendência ao isolamento.  

 

Há muito a fazer neste que é um desastre sanitário sem precedentes. Na mesma medida, sabemos que esse desastre nos entrou desgovernado pelas casas adentro. Então, se há tanto ainda por fazer, comecemos nós mesmos a fazer as mudanças que nos cabem. Mas onde vive esse começo de mudança? Ora, nas Famílias, também estas, tantas vezes, atropeladas na tendência do famigerado “Phubbing”.

 

O hábito de uma exposição quotidiana tão elevada traz, também, impactos muito negativos na qualidade do relacionar das famílias. Uma grande percentagem de conflitos familiares estaciona sempre nesse espaço dominado pelo telemóvel. A relação entre pais e filhos adolescentes fica mais fragilizada, com mais dificuldades ao nível da comunicação e que, num reflexo menos simpático, apontam também para uma maior dificuldade na construção de uma imagem de si próprio, fragilidades de regulação emocional, reforçando o que já disse acima: elevados níveis de ansiedade, depressão e problemas de comportamento.

 

Volto agora ao princípio da precaução que a autora nos fala. Precaver esta avalanche de problemas passa, num primeiro plano, pela privação dos smartphones até, pelo menos, aos 16 anos. Quem argumenta sobre este ponto de forma exemplar é o Sociólogo Jonathan Haidt. Dar tempo para que a criança se desenvolva em todos as áreas do desenvolvimento, sem recurso direto e intenso das tecnologias, vai permitir-lhes crescer com as bases certas para que, mais tarde, e na esperança de uma maturidade consolidada, seja capaz de escolhas muito mais conscientes.

 

Por escolhas conscientes, dou comigo a pensar naquela que sempre fora, pelo menos até então, a grande essência da adolescência: ousar fazer diferente. Ousar pensar pela própria cabeça. Se a autenticidade/realização pessoal vive na pontinha da pirâmide das necessidades de Maslow como uma das maiores aspirações humanas, o pesadelo da adição aos telemóveis e tecnologias chegou para dificultar, mais ainda, esse que é um dos maiores alicerces que nos distingue, ou pelo menos deveria, como gente. Gente que pensa.

 

Se nos servir de alguma coisa, que todos sejamos um pouco adolescentes naquela tendência que lhes é tão conhecida de “serem do contra”. Que sejamos capazes de olhar para dentro, com gentileza e sinceridade, saibamos medir o impacto das nossas escolhas e sejamos os rabugentos que não seguem um caminho só porque todos correm para lá. Sejamos Pessoas determinadas a Ser mais do que a Parecer. Acredito que é nesse pilar da autenticidade que conseguimos espaço para uma maior determinação de quem ousa, como o adolescente que se preza, a revirar os olhos e a dizer: “Eu não. Eu não vou por aí. Eu vou por ali.”

 

Que assim seja.


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