Em «Correcções»,
Jonathan Franzen desenha-nos a história da família Lambert do Midwest. Pode
parecer redutor, dito desta forma, mas tudo muda quando o leitor, ao bisbilhotar
as vidas daquelas pessoas, percebe que, afinal, este não é apenas um livro
sobre uma família: é um livro que contém o centro de dor de todas as famílias.
Pelo menos, as infelizes, as normais.
Como família normal,
temos Alfred, pai ausente e austero. Do outro lado da casa, temos Enid, a mãe que,
por excesso de zelo e na sombra de um marido descuidado, depressa aprende a
centrar as suas ações no desejo inocente de controlar a vida dos seus três
filhos, todos já bem longe de casa: Gary, Chip e Denise.
Estamos perante um
grande livro, de enorme beleza e esta, para mim, está concentrada na construção
(magistral!) das suas personagens. Não há uma pessoa feliz nesta casa ou fora
dela. Talvez, por se ter nascido ali, os filhos saem de casa com malhas tricotadas
pela mãe, são fios soltos de lã que se colam às roupas que vestem, às
lembranças do que foram, do que são e do que é suposto serem. Do que lhes é
esperado.
Como um repositório de
sonhos, as famílias são como papéis repletos de esquissos para aqueles que
amamos. Esquissos que pedem constantes correcções. Na boca de Enid, as palavras
para descrever o sucesso do filho mais velho, Gary, atropelam-se e engasgam-se.
A verdade? Gary tem depressão e um vazio no peito que não o deixa ser feliz,
por muito que tente.
Chip, o miúdo amado, desertor,
mas a ideia de ser um Professor famoso numa Universidade, lá vai tapando o sol
com a peneira a uma mãe que precisa de se tranquilizar perante uma vizinhança
que promete, em cada esquina, uma família feliz. A verdade? Chip é um somatório
de más escolhas, mulheres tresloucadas, álcool, drogas e uma carteira sempre
vazia.
Denise é uma Chef famosa,
mas que não se deveria ter casado ou, pelo menos, já que casara, manter-se como
tal. Era bom de ver que não iria correr bem, Enid sempre o soube e, agora, ver
a filha feliz com um bom novo homem, era imperativo. Mulher bonita,
inteligente, a filha não poderia ficar só. A verdade? Denise é o reflexo de uma
dúvida constante, entre amores e desamores, só a certeza do seu trabalho lhe dá
as doses mínimas diárias de uma paz sempre muito fabricada.
Neste funil familiar, tudo
se adensa para o caos de uma nova realidade: Alfred, o pai, tem Parkinson
avançado. Com a vida sempre orquestrada ao ritmo da vida (agitada e importante)
do marido, Enid permite-se, agora, ao luxo de um sonho pequeno: reunir a família
para um último Natal.
Estão assim desenhadas
as linhas que formam este vitral tão comum de todas as casas. Por muito que a
vida se empenhe em grandes aspirações, há sempre um lugar onde tudo se mantém
intacto: um lugar chamado família. Um lugar onde as cortinas de infância se
mantêm fiéis e pedem, agora, recordações muito mais nítidas. Um lugar onde um
cadeirão azul ou uma lata cheia de urina, escondem segredos que só uma família
unida pela desgraça, mantém de pé. Um lugar tanto odiado como amado, um lugar
vitalício onde, quer se queira, quer não, sempre se regressa.
O autor retrata, de forma
simultaneamente cómica e emotiva, a família como organismo vivo. A família como
eterna construção, derrubando ali, erguendo acolá. Escondendo aqui, mostrando
ali. Sacrificando bibelôs, engolindo sapos e cadeirões azuis. Através daquela
que, para mim, é a personagem principal, o autor transforma Enid (a mãe) na
grande Mestre de Obra, o alicerce sempre silencioso, até ao dia em que, quis a
fatalidade da vida, pode – finalmente - dar voz às suas próprias – e tão justas
– correcções.
“Continuava tão obstinado como no dia em que o conhecera. No entanto, quando, depois de ele morrer e ela ter comprimido os lábios contra a sua testa e saído com Denise e Gary para a tépida noite primaveril, Enid sentiu que nada poderia agora matar a sua esperança, nada. Tinha setenta e cinco anos e ia fazer algumas mudanças na sua vida.”
Enviar um comentário