Charles Bukowksi assumiu
John Fante como o seu Deus, o seu grande mentor. Sobre os seus livros, Bukowksi
definiu-os de uma forma implacável, de tão certeira: “…escritos com as
entranhas e com o coração.” Ler John Fante é ler a vida desarrumada através
de uma personagem incontornável da Literatura, Arturo Bandini.
Neste que é o primeiro
livro do intitulado “Quarteto Bandini”, abrem-se portas ao contexto
familiar de Arturo, entre os seus doze e quatorze anos. Filho de Maria e de
Svevo Bandini, com os irmãos August e Federico, a história mostra-nos a pobreza
em que vivem, as dificuldades constantes face a uma neve que impede o pai de
trabalhar. Resta-lhes o fervor religioso transmitido pela Mãe, como quem
procura amparo a uma fé nem sempre fácil de se manter por si só. E depois, a
esperança na Primavera que há de chegar.
Mas quis essa janela de
tempo entre uma realidade gelada e a promessa da Primavera, que o pai, Svevo
Bandini, deambulasse para longe de mais das quatro paredes da casa, não só para
afogar as mágoas no álcool, porque não podia trabalhar e por isso sofria, como
quis também a vida que lhe aparecesse à frente a viúva mais rica da zona, Mrs. Eddie
Hildegarde. Jamais lhe passara pela cabeça trair a esposa, mas dizem que a ocasião
faz o ladrão e Svevo acaba por sucumbir ao dobro de oportunidades que a vida,
até então tão parca, lhe dava agora de mão beijada.
Este é apenas um breve
destapar da cortina de uma família à beira da miséria, financeira e emocional.
É que nisto de uma traição, sobra uma mãe desesperada, capaz de arrancar os
olhos ao marido e no reflexo, os três filhos aprendem coisas que não seria
suposto. Sobretudo para Arturo, amor é coisa difícil e a desgraça que se abate
em Rosa imprime-lhe no peito de miúdo, a dor desajustada dos crescidos. A certeza
de que, quando o assunto são as mulheres, há algo de muito errado no ar.
Com generosas doses de
inocência e a farta imaginação tão característica do auge de uma adolescência a
emergir, o leitor terá a oportunidade de conhecer de perto os medos e anseios
deste jovem, sempre doseados pelo temor do pecado e a confissão como promessa
de não perder o seu Deus para outra equipa.
Arturo Bandini representa
esse cenário desenhado pela pobreza e os constantes desafios de toda uma
comunidade imigrante italiana, mas que, mesmo assim, não deixa de vincar o seu
direito a imaginar-se no cume dos seus sonhos. E como tem sonhos, este rapaz.
Percebeu que o mundo espera por ele e ser escritor será a resposta e a
confirmação da sua relevância, do seu valor enquanto futuro Homem.
Novas aventuras o
esperam.
O Mundo aguarda Arturo
Bandini.
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