O próprio Thomas Mann
considerou o seu primeiro livro, escrito aos 26 anos de idade, como "saga
familiar", sendo esta uma das classificações tipológicas mais aceite,
assim como "romance de família" ou "romance de gerações". A
ação do livro decorre em Lubeck, terra natal de Thomas Mann e vem contar-nos a
história de uma família burguesa afetada por um declínio progressivo. Ao longo
de quatro gerações, a decadência familiar vai-se sentindo de forma mais evidente,
iludida apenas por breves momentos de suposta estabilidade.
Thomas Mann escreveu,
num reflexo muito realista, o perfil psicológico e o estatuto social burguês,
assim como uma aprimorada construção da mentalidade burguesa, incluindo um
conjunto de traços comportamentais muito específicos, e peculiares, além da nítida
superioridade daquela classe e sua mentalidade.
Desta forma, ao longo
das referidas gerações, a narrativa incidirá como maior nitidez na quarta
geração e a regressão às anteriores, como um fluxo de tempo e a decadência
iminente ao leitor, mas, até então, desconhecida ou não aceite pelos mais novos
Buddenbrook.
Um dos aspetos mais
pertinentes ao longo da história é a própria casa de família, uma quase
personagem em si mesma. Há uma relação muito estreita entre o espaço em que a
história é narrada e a própria temática de falência, de decadência familiar. De
forma linear, e resumida, enquanto o patriarca Johann Buddenbrook se esmera em
fazer crescer a firma homónima de cereais, contribuindo para uma imagem social
da família alto-burguesa tida em conta por toda a sociedade, o seu filho Jean
acaba por contribuir para a redução moderada do capital da empresa,
independentemente dos seus esforços contrários, assim como os netos Thomas,
Tony e Christian (geração na qual o enredo se foca), acabam por realizar a
alienação do património da família sendo, por fim, o bisneto Hanno a ditar,
pela força – talvez - de um destino, a extinção completa da estirpe
Buddenbrook.
Mas acredite o leitor
que nem tudo é negativo à medida que vamos conhecendo o declínio desta família.
Na mesma medida da queda do património, da falência familiar, há também um
crescimento emocional e intelectual dos homens da família. Se até então os
temas empresariais e económicos giravam, forçosamente, em torno da família
inteira, eis que se assiste a uma nova tendência de vislumbrar e desbravar
assuntos relacionados com a religião, com a filosofia, teatro e música, quase
como muletas que justificariam a queda fatídica e, paralelamente, a mentalidade
burguesa muito tacanha e restrita.
O autor, muito novo no
momento em que escreveu o livro, confessou-se fortemente influenciado pelos
trabalhos de Tolstoi e Turgueniev. Apesar do enorme sucesso que viria a ter,
«Os Buddenbrook» não teve grande aceitação inicial por parte do público da
terra natal do autor e isto porque a maioria dos familiares e amigos
conseguiram rever-se em muitos momentos da história, sentindo-se ridicularizados.
Há quem defenda que surgiu, na altura, uma lista com os nomes das figuras
romanescas aludindo às supostas pessoas que estiveram na base criativa do
autor.
O subtítulo não dá azo
a grandes erros. Esta é a história de uma família e sua decadência financeira,
pessoal e, até, moral. Ler «Os Buddenbrook» pode, facilmente, assemelhar-se ao
ritmo de um pêndulo. Se a festa de inauguração da casa assume o ponto máximo do
sucesso, felicidade e ascensão da família, rapidamente o pêndulo assume o
movimento contrário que, ao longo das gerações, acaba por eclodir com a mesma
força, derrubando tudo o que fora antes construído.
Se inicialmente as
festas eram rituais quase sagrados, dando-se igual importância ao
entretenimento musical, à confeção da comida e ao sabor da mesma, gradualmente,
a necessidade de cada personagem parece impor-se.
Johann, casado com
Antoinette, é um dos membros mais dedicados ao crescimento da empresa. Thomas,
Christian e Tony são três dos filhos nos quais se reflete todos os
desenvolvimentos da história. Nascerá ainda Clara, num nítido paralelismo dessa
decadência, quando nasce precocemente, num dia de Primavera, fora de tempo,
quase destinada a um fim igualmente prematuro. Há muita simbologia na obra de
Mann o que, na minha opinião, só o eleva ainda mais a um dos melhores clássicos
de sempre.
As personagens são
feitas de uma riquíssima complexidade e igual humanismo sendo, tantas vezes,
impossível ao leitor não se emocionar com os azares de algumas personagens,
particularmente, de Tony, a irmã mais velha e a que deposita na firma e na
família as respostas a todos os seus sacrifícios e, acredite, esta será uma das
personagens que Deus colocará, constantemente, à prova.
O irmão mais velho,
Thomas, acabará a liderar a empresa e a família. Também esta personagem será
dedicada ao nome e estatuto social que a família deposita, numa ansiedade
crescente em não desonrar a imagem dos antepassados. Já Christian, irmão mais
novo, é a personagem sempre doente, adivinhando um TOC profundo e uma quase
hipocondria como resposta do seu eterno desejo do ócio.
Gradualmente percebemos
que, à semelhança do pai, também Thomas tem uma saúde precária. Assumindo as
rédeas da empresa até à exaustão, adivinhamos que o declínio está próximo,
independentemente de todos os seus esforços mentais para reverter a situação. O
seu casamento, também ele pensado de forma estratégica, não só nos relembra o
seu amor por Anna e tudo o que desistiu em prol do nome «Buddenbrook». O mesmo
se vive, até de forma mais intensa, com a história inesquecível de Tony, junto
ao mar. E seu Morten que "ficou nas pedras."
Esse é registo
principal: o sacrifício da maioria das personagens em nome da família, da
empresa e de tudo o que isso implica. O momento do centenário da firma é o
ponto máximo que prediz o declínio total, de tudo e de todas. Nesta fase,
também a casa assume, uma vez mais, o poder enquanto personagem. Após a morte
da mãe, a venda da casa é inevitável. Este é o princípio do fim.
Se para Thomas, cada
vez mais débil e cansado, a esperança residia em Hanno, o seu filho ainda
pequeno e feito de uma sensibilidade enorme, também essa ideia sai
completamente fora dos seus intentos, mas, para o saber, o leitor terá de ler
uma obra muito profunda sobre a importância da família e a necessidade de olhar
para dentro colocada, quase sempre, em segundo plano.
Apesar de «A Montanha Mágica» ser considerado o melhor livro do autor, e mesmo sendo um livro num tom totalmente diferente, «Os Buddenbrook» entrou, rapidamente, na lista das minhas melhores leituras. É um livro sobre uma época e é também um livro sobre questões imutáveis, transversais a todas as gerações e, talvez por isso mesmo, nos invoque tanta empatia e o desejo de que as personagens que por ali vivem, fossem um pouco mais felizes.
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