Esta História (A. Baricco)

 © Fotografia de Denise C. Rolo

Foi em «Esta História», de Alessandro Baricco, que encontrei aquela que considero ser uma das personagens mais peculiar, singular e bonita: Elizaveta. Mas não nos adiantemos.


Alessandro Baricco, como já tive oportunidade de o dizer, mantém-se firme nos lugares cimeiros dos meus autores preferidos. E isto significa que, para mim, falamos de um autor igualmente singular, assim como as personagens que cria, sempre tão cheias, sempre tão a transbordar cá para fora o que não suportam dentro. Um coração inflamado pela arte de viver histórias. E este livro é feito de histórias, são pequenas bonecas russas que fazem nascer, aqui e ali, uma história em mil, mil histórias que são, afinal, uma só. Hoje falamos de um livro magistral.

 

«Esta História» é a história de um menino que, segundo dizem, tinha sombra de ouro. De nome Ultimo. Por ter sido o primeiro a nascer e, segundo a mãe (que se enganou), seria o último.

 

É uma história feita de carros, corridas, pais e mães, amores e desamores, mas, mais do que tudo isso misturado e embrulhado, é feita de um sonho que teima em ser real. O sonho de construir uma estrada, não uma estrada qualquer:

"Os seus olhos tinham-se iluminado. Vou construir uma estrada, disse. Algures, não sei onde, mas hei-de construí-la. Uma estrada como ninguém imaginou. Uma estrada que acaba onde começa."

 

Também Ultimo é um personagem peculiar. Franzino, reservado, com essa sombra de ouro, ele nunca precisou de grandes cenários para marcar a sua presença. A relação com os pais, na igual lei da reserva, foi crescendo toldada por algumas mentiras rápidas, mas que se consolidaram no tempo. Ganharam forma e definiram-lhe, de alguma maneira, marcas mais vincadas nessa forma de ser virada para dentro, para o sonho e o objetivo cerrado de o fazer nascer.


Elizaveta aparece do nada. Há um diário cativante que nos prende e do qual não queremos sair. A professora de piano encontra-se, de uma forma nebulosa, com Ultimo e juntos deambulam pelas estradas, vendendo pianos, vendendo histórias, amealhando poucas moedas. Neles tudo parece uma incógnita, sobretudo o amor que os une e que ela, convicta da realidade do seu próprio diário, ri deste e do corpo despido à sua frente. Será o seu diário e a história que lá imprime (verdadeira ou deturpada?) que irá determinar os passos de Ultimo para bem longe dela, apercebendo-se disso já muito tarde, no decurso de uma história que é feita à velocidade da luz.

"(...) mas tinha a sombra de ouro, e a senhora estava apaixonada por ele. E ainda está. E nunca vai deixar de estar porque foi para isso que a senhora nasceu."

 

Caro leitor, leia este livro sem qualquer arnês. Sem a segurança de uma opinião muito detalhada, que lhe conta coisas que, para fazerem sentido, têm de ser lidas a nu. Assim é com Elizaveta, mulher tão interessante, e com Ultimo, o homem com essa sombra de ouro que brilhará até ao fim dos seus dias. Se houvesse uma explicação sinónima para esse brilho seria, com toda a certeza, a persistência certa dos teimosos.

 

Alessandro Baricco constrói, neste livro, uma história de amor e persistência. É definitivamente uma das mais bonitas histórias de amor, crua, genuína. E, talvez por isso, tão real, tão poderosa.

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