Com spoilers
© Fotografia de Denise C. Rolo
Carol Ann Warner Shields nasceu a 2 de Junho de 1935 em Oak
Park, Illinois. Ficou conhecida, particularmente, pelo seu aclamado «A Memória
das Pedras», vencedor por Prémio Pulitzer de 1995. Faleceu no dia 16 de Julho
de 2003 no Canadá.
Em «A Memória das Pedras» conhecemos a
história de Daisy Goodwill. Todo o livro é essa caminhada. Nascimento.
Infância. Casamento. Amor. Maternidade. Trabalho. Desgosto. Tranquilidade.
Doença. Declínio. Morte. Esta é a jornada de vida de uma mulher que, em todo o
tempo, se procurou a si mesma nos lugares mais improváveis.
O livro começa com um excerto de «The Grandmother Cycle de
Judith Downing, Converse Quarterly, Autumn», que nos diz:
Nada do que ela fazia
ou dizia
era exactamente
o que queria
mesmo assim a sua vida
era como um monumento
esculpido no decline
da luz disponível
girando ao som
da música possível
Lido todo o livro, o leitor deve voltar para esta página,
para este excerto. É aqui que reside na totalidade a essência de Daisy. Uma
mulher que nasceu perdida, como obra do acaso, de uma mãe também ela imprevista
nas matérias da maternidade e do amor devoto do seu pequeno homem. O seu
nascimento seria a prova de que os inícios constroem os fins.
O casamento dos seus pais surgiu como os dias de chuva, uma
espécie de acaso. Uma mulher entregue, desde pequena, a uma casa de acolhimento
e que, um dia, com uma porta estragada, conhece o pedreiro que iria resolver o
problema. Resolveu-lhe também o problema da solidão, propondo-lhe casamento e
uma casa para viver. Aceitou-o como quem aceita uma flor ou uma pedra. Era uma
mulher que vivia para a comida, para a cozinha, ansiando despertar no marido o
paladar certo, com a comida certa, com um pudim novo. Era a sua forma subtil,
mas pungente ainda assim, de lhe mostrar amor. Quem sabe, gratidão.
Um dia cai ao chão, dores que desconhece e o judeu que a
ouve e abre a porta. Uma menina nasce e a mãe desiste de lhe viver, quem sabe,
numa troca justa de quem nunca se agarrou tanto assim à vida.
Nasce Daisy Goodwill, resgatada pela vizinha e amiga
Clarentine. Também esta mulher foge do que o destino lhe desenhou. Deixa para
trás o marido, quase injustamente, e instala-se em casa do filho mais novo,
Barker. O pai de Daisy ficou onde sempre esteve, com a vida ladeada em duas
direções: casa-trabalho. Entre ambas, trabalhava a pedra que sempre o foi
definindo, erguendo uma torre de lembrança à esposa amada, também esse amor,
lapidado com o tempo, esquecido, relembrado, novamente esquecido pela afronta de
uma morte inesperada.
Aos 11 anos de idade já Daisy era uma menina-mulher. Os braços nus, em vestidos
de Verão, lembravam mais do que seria de supor ao seu tio emprestado Barker. O
medo de pensamentos que ultrapassavam a moral dos tempos e lhe calcavam a
luxúria, afastaram-no aos poucos. A vida ajudou, trespassando Clarentine para
uma morte por atropelamento. Daisy jamais poderia viver apenas e só com o seu
tio. Foi quando a vida voltou a empurrá-la na direção do seu pai, agora com
melhores condições de trabalho, cada vez mais rico e detentor de um certo
estatuto social.
Ao sabor do vento é a condição que melhor cabe em Daisy. A vida desta mulher,
desde o início, foi marcada pelo peso do seu passado, como pedras, e esperanças
como flores, as quais aprendeu a cuidar com Clarentine para, nunca e em momento
algum, sentir-se como una, inteira. Por muito que a vida lhe pudesse oferecer,
aos poucos, em pequenas rajadas, Daisy nunca se sentiu inteira.
Poderia o amor mudar essa sensação de perda constante? Também o seu primeiro
casamento não passou de um momento fugaz, levado pelo vento e pelo tempo que
prontamente fez esquecer. Ficou, uma vez mais, o peso pesado de uma situação a
que nenhuma jovem mulher deveria viver, muito menos naquela época: o marido,
homem embriagado a todas as horas do dia, cai-lhe da janela no primeiro dia da
sua lua de mel. Amor, a Daisy ainda não havia encontrado. Como poderia agora a
vida melhorar? Encontrar uma direção que fosse ao encontro de si mesma?
O tempo passou e com ele a resignação dos cansados da alma. A viver com o seu
pai e a sua nova esposa, Maria, mais nova, mas sem idade definida, Daisy
continuou a vislumbrar o abismo com que sempre vivera. Um constante tempo
nublado. Faltava o sol que fertiliza, bem à sua maneira.
Decide, então, viajar. Sozinha. Por uma ou duas semanas. Quer ver rios, coisas
novas, coisas bonitas, viver sensações desconhecidas, começar a tratá-las
por tu. Como quem vive, de facto. Como quem mergulha. Como quem
vive, enfim. Um braço que roça, acidentalmente, no seu. A certeza de um coração
que lhe pulsa, que lhe transparece pelas veias, na pele.
"Naquele tempo, eu pensava que os homens eram
sobretudo apreciados pelas histórias que irrompiam nas suas vidas, enquanto que
com as mulheres o mais provável era que fossem asfixiadas pelas que irrompiam
nas delas. Porquê? Por que é que tinha de ser assim?"
O amor surge-lhe após rever o tio Barker,
que nunca foi tio. Quis a força das circunstâncias determinar um elo de sangue
que nunca existiu. Quis o destino, ardiloso, que as circunstâncias não fossem
mais do que isso e a diferença de idades, apenas e só, uma constatação.
Casou. Foi mãe. Descobriu o amor na serenidade dos gestos de Barker. Descobriu
a maternidade na diferença de cada um dos seus três filhos. Tornou-se mulher.
Aprendeu a cozinhar, a cuidar da casa, a cuidar de si, a ser mulher a dias e
mulher na hora da chegada do marido.
E o tempo, juntamente com um vento consistente, levou-lhe mais anos. Levou-lhe
Barker também, dianteiro na idade e na vontade de viver. Ficou só. Enlutou e
reavivou aquele vazio que sempre a definiu. Um vazio a carecer, todas as horas,
de um preenchimento.
Daisy começou a trabalhar. No legado do seu marido professor e investigador,
tornou-se a «Boa Mão», escrevendo artigos cuidados e pormenorizados sobre
plantas em geral. Um novo vazio era agora suplantado pela necessidade de
realização pessoal, mas também esse vazio que cobriu consigo mesma, lhe foi
tirado. Um dia, do nada, é dispensada de escrever os seus artigos.
Surge, então, a má hora. Entra em depressão para, mais tarde, ressurgir como
quem nasce das cinzas. Dizem que as más horas são tão necessárias como o pão de
cada dia. É o cair que nos permite o saber levantar. Não levantar de qualquer
maneira. Levantar na hora certa, no momento exato, no minuto do despertador,
num mais um, nem menos um.
A vida desta mulher continua e ela, certa de quem é, deixa-se ir com o vento, e
tal como nasceu, assim morrerá: entregue e despojada àquilo que a vida lhe foi
apontando. Horas felizes, horas amargas, horas nada, horas tudo. Daisy não se
limitou a viver por viver como muitos poderiam pensar. Limitou-se a viver numa
procura quente de si mesma, acreditando sempre no sentido de humor que só os
afortunados de alma são capazes de enxergar. Dizem que veem com os olhos de
Deus. Um clarão que não se decifra.
- Ela deixou que a vida lhe acontecesse.
- Bem, e porque não?
- Era como se...
- Como se?
- Como se ela estivesse sempre a perseguir um breve
pensamento perdido com uma agulha e uma linha.
- Receosa de olhar para dentro dela mesma. Para o caso de
não haver lá nada.
Carol Shields agita-nos e empurra-nos para a perseguição desse breve pensamento
perdido. Será o destino final a resposta para o sentido da vida? Vivemos nós
todos estes anos para, num enfim já cansado, apenas chegar? Chegar onde?
«A memória das pedras» é o dedo na ferida para todos aqueles que
buscam o sentido de si, e da vida, para lá de si mesmos. O estalo fatídico de
que, afinal, a vida é feita desses pequenos nadas e que saber confrontá-los,
nesse clarão que não decifra, é por si só viver. O verbo é terapêutico e cheio
por si mesmo. Viver. Viver somente. E só assim a vida acontece.
Só assim.
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