© Fotografia de Denise C. Rolo
Há livros que nos surgem na vida como certas pessoas, que
aparecem e ficam para sempre. Falo daquelas pessoas com quem podemos sempre
contar, que são presença mesmo sem estarem ao nosso lado, que nos orientam
independentemente do nosso próprio estado de espírito. E isto, cada vez me
apercebo mais, acontece igualmente com determinados livros. Há livros que vamos
ler para sempre, mesmo que não estejamos, consecutivamente, a abrir as suas
páginas. Ficam connosco, tornam-se amigos e até, um pouco, orientadores dos
nossos próprios receios e sonhos.
Aconteceu-me isto na minha estreia com George Eliot e o
seu «O Moinho à Beira do Floss». Desde então, as minhas
experiências de leitura ainda se mantêm na sombra desta história. É mais forte
do que eu. Para juntar a tudo isto, Maggie Tulliver, a heroína desta história
tão especial, destronou Jane Eyre, a minha personagem preferida desde que me
lembro.
George Eliot escreveu um livro sobre o papel da mulher e a
transparência com que este se desenvolvia quer no seio da família como na
esfera social do século XIX. Mulheres curiosas são perigosas, assim como
mulheres que leem, falam e gostam de aprender, são um perigo a reter em mão de
macho, que sabe sempre o que faz.
Deixo, porém, um sublinhado que considero importante: não é
minha intenção disparar aqui em favor do feminismo, falar mal dos homens no
geral e passar a ideia de uma fragilidade inerente só ao sexo feminino. Não é
nada disso, mas é também um pouco disso. Pois.
«O Moinho à Beira do Floss» é um livro sobre uma
família que conhecemos no seu auge financeiro, contudo, um incidente fruto do
patriarca da família, deita tudo a perder e viveremos o declínio financeiro, e
social, de uma família muito arreigada aos estatutos sociais e valores morais.
E depois, há Maggie. Além de escrever uma história sobre a
família, o poder desta em cada um que a forma, George Eliot cria também uma
espécie de romance de formação, uma vez que acompanhamos o crescimento de uma
menina muito peculiar, inteligente e com bagagem de sonhos no lugar do coração.
Falar de emotividade quando nos referimos a Maggie, é falar pouco. Desde
pequena, parece sentir tudo em dobro, de uma forma muito especial e única. A
família, sobretudo o irmão Tom, assume tal importância que, o passar do tempo e
o consequente crescimento, não a permitem - como gostaria - tornar-se a mulher
independente que sabe ser, desde que nasceu.
É uma história de verdadeiro sacrifício por amor. Amor à
família. Há um momento na vida desta mulher em que percebe que a sua
inteligência e a vontade de amor em tudo o que diz e sente, são um prejuízo a
si mesma, na imagem tosca de uma sociedade feita por e para homens. Por isso
mesmo, decide a partir daquele momento anular o tumulto que sempre lhe vivera
no peito, tornando-se morna, quase pálida e uma servente dedicada à família.
Apesar destas intenções, há uma verdade sempre difícil de
aceitar: a essência de uma pessoa nunca morre. Pode mudar, pode reorientar-se,
pode agrupar novas formas de ser e estar, mas a essência, aquilo que lhe vai
dentro, isso nunca jamais alguém poderá aniquilar para sempre.
Pelos caminhos mais inesperados, Maggie acabará por exaltar
a sua verdadeira forma de ser e será precisamente esse o momento em que se
tornará inesquecível, para tudo e todos os que vivem perto do Floss. Poderia
contar-lhe tim tim por tim tim desta história
e das vivências que levarão Maggie a renunciar a si mesma, mas não o farei. Não
o faço porque acredito que este é mais um daqueles casos de leitura que não
precisa de qualquer arnês prévio. O leitor não precisa de saber com o que conta
aqui, dentro deste livro. A única coisa que precisa de saber é que estará, se
se decidir à leitura, prestes a conhecer algumas das personagens mais marcantes
da literatura, adornadas por uma história de aparentes temas repetidos, mas
que, na sua essência, se alastram pelo tempo e lhe aumentam a
importância. Mas que tema é esse?, perguntaria.
A família. O poder vitalício da família. Os seus laços, que
nunca se rasgam e que por mais desavenças que a vida insista em tecer, há
um amor maior do que tudo e que pode tudo.
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