CONTÉM SPOILERS
Hoje falo-lhe de um grande clássico da literatura que, apesar disso e sobretudo na época da sua divulgação, foi dos menos falados e comentados. Creio que o mesmo ainda acontece hoje, apesar do conhecimento quase popular em torno da figura do peculiar médico. Independentemente da imensidão de filmes, séries, e até jogos, que inspirou, a verdade é que Stevenson foi um dos autores menos tidos em conta na sua época. Foi, inclusivamente, considerado um «autor de segunda» sendo desprezado por muitos escritores de renome àquela altura, sendo Virginia Woolf um dos casos mais gritantes.
Independentemente deste contexto, a verdade é que a
realidade agora é outra, pois «O Médico e o Monstro» é
considerado uma história não só de extremas particularidades como, e acima de
tudo, pela atualidade que ainda faz ressoar nos nossos dias.
Um livro que nasce na Era Vitoriana, «O Médico e o
Monstro» é um dos grandes percursores das histórias de mistério.
Narrado pelo carismático advogado Utterson, a história tem início quando este e
um amigo deambulam pelas ruas de Londres e se deparam com uma estranha porta.
Dessa porta, surge uma história partilhada pelo amigo daquele, contando-lhe que
reza uma quase lenda em torno de um misterioso homem que atacara numa noite,
sem motivo aparente, uma menina de 10 anos que se encontrava sozinha. A
conversa suscitou ainda mais curiosidade ao advogado depois de saber que o
misterioso homem, numa tentativa apressada de minimizar os seus actos, passara
um cheque à família da criança, de forma a resolver o assunto. Mas a
curiosidade não estancou aí. Utterson ficara a saber que o cheque em questão
fora passado em nome do célebre médico, e seu cliente, Dr. Jekyll.
Está assim criada a arquitetura de uma história que se pode
firmar apenas numa palavra: dualidade. Esta história é marcada
por um segredo que viaja do início ao fim do enredo, segredo esse que se torna,
rapidamente, no mote de Utterson e na sua necessidade, quase física, de o
desvendar e, acima de tudo, de o compreender.
Saberemos, no desfecho dramático desta pequena história, que
Dr. Jekyll, o médico altruísta, é o mesmo que Mr. Hyde, o homem pequeno,
«escondido» e que personifica o lado sombra do primeiro. É sobre isto que narra
o livro: a dualidade, a distância entre o bem o mal. O ponto mais singular, e
na minha opinião o mais interessante, passa pela ideia misturada do bem
e do mal na mesma pessoa e não o sentido de rectidão e divisão entre
ambas as polaridades. A verdade aqui transmitida é que todos nós somos
feitos de diferentes níveis de luz e que, mediante a perspectiva, a sombra
tende a diminuir ou a aumentar. A verdade nua e crua é que o ser humano é essa
soma, por vezes assustadora, de sombras projetadas por uma luz que se destaca
em primeira mão.
Através dos experimentos de Dr. Jekyll o leitor acabará nas
suas reflexões pessoais sobre o que é isto de ser bom, de ser mau, de ser
ausente ou presente. Por vezes, a necessidade de um propósito, de uma vida com
mais sentido, faz-nos atravessar estradas escuras que mais não são do que ecos
do nosso interior, assustado e, simultaneamente, apaixonado pela ideia de se
perder um pouco.
Tudo nesta história pode facilmente ser ladeado pela ideia
da dualidade, inclusivamente o próprio cenário e a carismática casa do médico.
Desde as duas portas, uma central e a outra, estranha e quase escondida da rua,
assim como os corredores específicos que apenas permitem uma forma de lá
chegar, invocam essa ideia de pratos de uma mesma balança mas em que cada um, e
à sua maneira, giram em posições opostas.
Até onde poderá ir a maldade? E a bondade, poderá esta
prevalecer?
Estas são algumas das questões que nos ficam a ressoar por
dentro. Um clássico incontornável, atual e carismático. Um livro para ler e
reler com lições, embora conhecidas, nunca assimiladas na plenitude Sublinhe-se
aqui a teimosia e complexidade humana como algumas das grandes justificativas
para um questionamento que tende a perdurar para lá da vida que conhecemos.
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