© Fotografia de Denise C. Rolo
Creio que a maioria concordará com a beleza deste título.
Torna-se ainda mais bonito, e significativo, quando paramos para pensar no
grande intuito do autor: Kundera refere-se à problemática do tempo, como
insustentável leveza que ninguém consegue guardar para si mesmo e largamente
dependente do contexto em volta. O tempo é sentido como uma corrente que passa
uma vez, tornando cada um dos nossos gestos completamente únicos, estanques,
que não mudarão jamais. Sendo então fragmentos de tempo que não se repetem,
tornam-se leves mas, precisamente por isso, insustentavelmente leves. Logo na
primeira página, o autor faz referência ao conceito de «eterno retorno» (Nietzsche), plantando
a teoria de que o peso desse eterno retorno às nossas vivências, anulando a
espontaneidade dos nossos gestos, não pode ser comparável ao peso da
insignificância e falta de sentido dessas mesmas vivências (únicas) num mundo
que não se repete, que é único e que as nossas decisões são taxativas, sem
direito a um rascunho prévio.
Não é tão confuso como pode parecer, à partida. Este é um
livro feito de filosofia. Mais do que um romance inserido numa época histórica
muito específica (Primavera de Praga), é um livro que escorre filosofia
de uma forma muito bela. Dei comigo a pensar várias vezes no quanto aqui
podemos encontrar os grandes princípios da filosofia oculta e o quanto esta
questão da vida vista pela leveza ou pelo peso de um tempo que só se vive uma
vez, ser tida em linha de conta pelas polaridades. Se a sombra é tão somente a
ausência de luz, então, a leveza da vida mais não é do que a ausência desse
peso, tantas vezes tido como fardo. Kundera, precisamente neste ponto, faz-nos
pensar na necessidade tão humana de nos inserirmos nos extremos, na ponta de
uma escala, se assim for mais simples entender.
Se levar uma vida leve nos deixa aparentemente livres, então
porquê que a maioria das personagens neste livro necessita, com uma força capaz
de lhe arrancar as entranhas, de viver à luz de um peso que vai sustentando uma
vida feita de dúvidas?
"Mas, na verdade, será o peso atroz e a leveza bela?
O fardo mais pesado esmaga-nos, verga-nos, comprime-nos contra o solo. Mas, na poesia amorosa de todos os séculos, a mulher sempre desejou receber o fardo do corpo masculino. Portanto, o fardo mais pesado é também, ao mesmo tempo, a imagem do momento mais intenso de realização de uma vida. Quanto mais pesado for o fardo, mais próxima da terra se encontra a nossa vida e mais real e verdadeira é. Em contrapartida, a ausência total de fardo faz com que o ser humano se torne mais leve do que o ar, fá-lo voar, afastar-se da terra, do ser terrestre, torna-o semi-real e os seus movimentos tão livres quanto insignificantes.
Que escolher, então? O peso ou a leveza?"
Representado por quatro personagens principais, Tomas,
Teresa, Sabina e Frank, o leitor viverá estes dilemas à luz de quatro
personagens perdidas em si mesmas, fragilizadas e ausentes de um sentido de
vida. Na mesma medida, questionamos o que é, de facto, ter um sentido na vida?
E eis que volta a temática que resume este livro: o poder do tempo e a
necessidade que o ser humano tem de viver o mundo como um mar de possibilidades
e angústia de um tempo que nos imprime, momento a momento, uma marca eterna,
por dentro e por fora.
O narrador parece um alter ego do próprio autor, dando-nos
os seus pareceres e, acima de tudo, incutindo no leitor uma série de dúvidas.
Há certos trechos da história que parecem tão reais quanto um sonho, serão de
facto? Acredito que as dúvidas interiorizadas em cada personagem não só dão
forma ao romance como às próprias dúvidas de quem lê.
Ao longo da história acompanhamos a relação entre Tomas, um
adúltero inveterado e Teresa, mulher meia perdida, numa clara representação de
suposta leveza e suposto peso. Também em Sabina, artista, amante de Tomas,
mulher independente e que cativa o amor incondicional de Frank, podemos ver
essas polaridades bem nítidas. Neste livro, ninguém está bem. Ninguém é feliz.
E todos procuram um propósito. Quanto mais perto parecem chegar, mais
rapidamente surge a vontade de inverter a marcha, de viver outra vez, de um
novo ângulo. É um livro feito de acasos, em que seis outros acasos tornaram
possível a Tomas conhecer Teresa e tantos outros acasos fariam Sabina querer
fugir do amor de Frank.
Tal como as bonecas russas, «A insustentável leveza do ser»
é um sublinhado constante à difícil arte de existir. É a existência pessoal, e
também a coletiva, a par de um contexto histórico marcante e em que as próprias
personagens se misturam nele, para no final chegarmos a uma aflitiva questão: e
se?
Houvesse um sinónimo feito de questão para esta história e
eu atribuía, de olhos fechados, um grande "e se?" E se Teresa não
tivesse ido embora? E se Tomas não traísse Teresa constantemente? E se Sabina
encontrasse um propósito na vida? E se Frank tivesse tomado uma decisão mais
cedo?
E então este é o momento em que, caro leitor, paramos,
fechamos o livro e sentimos que dentro dele há um esboço perfeito do verbo
viver. É tentativa e erro, uma atrás da outra, é a história que se repete fora
e dentro de nós, que nos define mas nunca inteiramente. É o amor melancólico,
feito de desculpas, é a constatação de que não podemos viver duas vezes o
minuto que já passou. É a vida a entrar-nos pelos olhos dentro e o querer,
ávido, de enxergar tudo, memorizar para, enfim mais descansados, reviver dentro
de nós o que já foi, o que nunca será e o que desejaríamos que realmente fosse.
Nessa compensação, a vida vai acontecendo.
Um livro muito especial em que atrelado a um enredo e a um
conjunto de personagens a questionarem o tempo, a existência e o amor, nos leva
também a perder-nos entre filosofias e anseios sobre o que fazemos nós das
nossas vidas e até que ponto gostaríamos de retornar e subtrair ou somar uns
quantos «e se?». Seria isso peso ou leveza?
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