Com base no conto
“Um
Telefonema” de Dorothy Parker
Termino a releitura deste conto e a chuva, lá fora, aflita e insistente, fez-me pensar no quanto a maioria das mulheres, sobretudo as adolescentes, beneficiariam em o ler. Aqui, Dorothy escreve a ansiedade de uma mulher que espera, num desespero crescente, que o telefone toque. Do outro lado, estaria o amor da sua vida que lhe garantiu, chamando-a inclusivamente duas vezes (duas vezes!) «querida», que lhe telefonaria às cinco em ponto.
No conto, ainda se
escreviam as pessoas (especialmente as mulheres, não há como negar) que se
desesperavam e estacionavam esperanças na espera por alguém, por uma atitude,
por amor. Por um telefonema. “Por favor, Deus, deixa que ele me telefone
agora.”
Sofrer por (des)amor
era natural. Entre as polaridades da vida, a pessoa sabia viver em corda bamba,
sempre na certeza de uma queda, boa, má ou assim-assim. Mas vivia-se. Vivia-se
nesse limiar de quem pouco sabe o que virá e no vazio dessa ausência do «não
saber», as emoções tinham espaço para brotar, ganhar raiz e a pessoa a permitir-se
duvidar. Um verbo que, quero crer, vive a maior parte do tempo numa rua
amargurada, mas não devia.
Hoje, mais do que
nunca, vestimos verbos virados do avesso. E o mais peculiar nisto tudo é que a
raiz da questão é sempre a mesma: queremos esperar, queremos duvidar. Mas hoje soma-se
a pressa a dias carregados de vazio, um tetris bem calculado, sem espaço
para manobras complicadas, sem tempo a perder. Sem espaço para esperar. Muito
menos, espaço para duvidar.
Esperar e duvidar são
dois dos verbos que nos (deveriam) diferenciar. São verbos feitos de elastano, como
a plasticidade que a vida (tão bem) nos exige. Esperar e duvidar são portas
abertas à arte de saber questionar. Nessa distância, em que se espera, em que
se duvida, questiona-se. Questionando, aprendemos. Na tristeza e na alegria.
A mulher no conto de
Dorothy espera e desespera. A tensão é crescente e na dor de quem espera,
começa a questionar-se. Valerá a pena esperar por quem não nos telefona? Ou,
por outro lado, no espelho de uma vontade mais firme, terá ela entendido mal e,
afinal, ele pediu-lhe para ser ela a telefonar? A tensão continua a crescer e a
consciência, também. Assim como, na mesma medida, volta a ir ao fundo pela
intensidade de um desejo, esse toque de telefone. Um rodopiar de consciência
que, ora teima na sensatez, ora teima no desejo.
A contemplação, uma
ramificação da espera, é ignorada nos dias de hoje. Há que fazer. Há que seguir
o enxame, como diria Byung-Chul Han. No meio disto tudo, os verbos continuam no
mesmo sítio, apenas virados do avesso. O homem que se enfia nos corpos de muitas
mulheres, continuará à espera de mais. É uma espera. A mulher que ensaiou a
história de que «todos os homens são maus» e, por isso, os enfia, também, corpo
adentro, continua à espera, na maioria das vezes, – mesmo que não o admita – que
no dia seguinte, o telefone toque.
A espera continua. A
dúvida mantém-se, mal fora, continuamos humanos. A raiz da questão é mesmo esta:
o vazio, a solitude, que ambos os verbos pedem. Para que uma espera prolifere
em lições, precisa de espaço para se moldar. De vazio. De silêncio. Da tal solitude
de quem assume as dores por conta própria. O mesmo para duvidar, que pede
ausência de respostas, que atira quem se é numa rede de pontinhos de
interrogação. Deveria pedir, sempre, uma placa na porta: «não incomodar, estou
a duvidar».
Enganem-se os apressados que se atiram à vida como quem salta para camas alheias e aos amores-algodão doce, agradáveis no início, tão pegajosos depois. Divirtam-se, mas não se iludam. A vida vai sempre pedir mais, esperar mais e duvidar mais ainda. A resposta vai estar sempre numa sala vazia, duas ou três interrogações no colo, à espera do toque de um telefone para, que por fim, se olhe no espelho e se saia rua fora feitos bons verbos, vestidos a rigor.
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