Jane Eyre (C. Brontë)

© fotografia de Denise C. Rolo












RELEITURA 15 ANOS DEPOIS

Romance autobiográfico, no qual a narradora escreve sobre a sua trajetória dos 10 aos 28, já mulher feita, casada com Rochester e mãe de filhos. Um romance de formação (bildungsroman), em que já mulher adulta resolve publicar a sua autobiografia.
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Porquê que gosto tanto de Jane Eyre?
Porque Jane Eyre é tudo menos essa mulher “pequena e pobre”. Uma mulher incomum, certa dos seus valores, simboliza o estereótipo de mulher segura, independente e devota. Encontramos três dimensões que tornam este livro, pelo menos para mim, tão importante: as desigualdades sociais, o desejo de integridade por parte da Jane e o desejo de amar e ser amada.
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O próprio livro parece escrito como uma peregrinação. Os capítulos vão-se acumulando num quase paralelismo dos passos da nossa Jane, sempre certa do que quer e que, sem por isso, se distancia da sua rota. É a integridade desta mulher que sempre me fez adorar esta obra e hoje, 15 anos depois, só me confirma o quanto caminhar pelo lado certo da vida, aquele que acolhemos como tal, é a fórmula que nos permite dormir, todas as noites, com a consciência tranquila.
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E depois, o amor. Seja como colheita natural das suas preces, seja como consequência direta da maturidade que a vida lhe exigiu, o amor ganha a forma ajustada à Mulher que ousou ser, contra tudo, contra todos.
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Poderia passar a tarde inteira a escrever sobre a Jane, mas é precisamente essa a palavra que define toda a obra: integridade. E dessa palavra, como raízes que se alargam, outros conceitos como amor próprio, segurança, crença, fé e carácter, acrescentam-se na soma daqueles que são, legitimamente, considerados boas pessoas.
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É muito isto. Jane Eyre dá-me a esperança de que ainda existem boas pessoas. Pessoas que amam apenas porque amam, sem esperar, e soltando. Pessoas •raiz• que sabem que se o amor lhes pertence, a eles virá, livremente. Como um reflexo de si mesmo.
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Isto só acontece a quem decide escrever a sua própria história à mão da coragem de ser quem se é. E nunca foi, como agora, tão desafiante sair porta fora de cara lavada e dizer “esta sou eu”.
Jane fê-lo. Como ninguém.

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