O Retrato de Dorian Gray (O. Wilde)




© Fotografia de Denise C. Rolo

RELEITURA 12 ANOS DEPOIS

Publicado pela primeira vez em 1890, “O Retrato de Dorian Gray” viria a sofrer muitas alterações por parte do seu Editor, dada as referências nítidas ao tema da homossexualidade.

Aqui lemos a relação entre Dorian Gray, jovem belo, o pintor Basil Hallward e, posteriormente, o enigmático e de moralidade dúbia, Lorde Henry, situada em Londres, no final do séc. XIX. O que os une é o quadro de Dorian pintado por Basil e é a partir daí que começamos a conhecer a essência do livro de Wilde: o impacto da Beleza e uma subtil (ou não tanto) associação a esta como ausência de capacidade de pensamento crítico e uma nulidade da consciência humana.

Quando Dorian vê o seu quadro, apaixona-se irremediavelmente (remetendo-nos, sem surpresas, ao Mito de Narciso) e pela potente influência de Henry, dá consigo angustiado pelo medo de envelhecer, desejando arduamente a eterna juventude. Será esse desejo tão profundo, o caminho direto para a sua desgraça. O simbolismo do quadro é essencial na análise da obra. Um retrato deixa-nos ver que há ali uma pessoa, de facto. Mas, na verdade, a pessoa não está ali. Essa ambivalência é que o norteia, ao longo de toda a história, os anseios e devaneios de Dorian. Ele deseja para sempre manter aquela beleza, mas esse desejo faz espelhar no próprio quadro, a sua verdadeira consciência, a sua alma. Por muito que o negue, por muito que a sua moralidade o deseje sentar em trono bem alto, a verdade espelhada no quadro por cada uma das suas ações, faz-nos concluir a beleza como alfinetadas certeiras à consciência pesada, que teima em ficar.

Por muito que Dorian dourasse cada ato hediondo, a revelação constante do seu interior, não lhe permitirá viver a vaidade dessa sua beleza ímpar, pois aquele sangue, no quadro, que lhe escorre das mãos, a frieza do olhar, incitarão ao seu último gesto de maldade e, ironia de uma vida tão cómica, gesto esse que o expõe, na potência da morte, a uma feiura que todos poderão ver.

Um livro aflitivo que nos permite refletir sobre a eterna batalha entre futilidades e aquilo que realmente fará a diferença a uma vida com real propósito.



Recomendo com ambas as mãos.


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