© Fotografia de Denise C. Rolo
A criação deste novo blogue está a dar-me um extra de contentamento que é revisitar leituras antigas e livros que merecem novos olhares, novas leituras e novas fotografias. Este é um deles. Li «Irmão de Gelo» em 2018 e, desde sempre, ficou comigo. Relembro uma leitura muito bonita, simples, de uma irmã perdida no gelo de amar um irmão distante pela fúria do autismo. Mas não só.
Sempre que consigo, gosto de criar as minhas fotografias alinhadas com a mensagem principal do livro. Aqui, muito à semelhança da fotografia de «A Montanha Mágica» (Thomas Mann), foi assim que percebi, desde logo, a personagem deste livro: perdida na neve, no gelo de fora e no gelo que carrega dentro. Uma solidão que, à falta de melhores palavras ou conceitos, a faz sentir-se egoísta. O irmão de gelo pede atenção redobrada e como parece mal, a ela, sentir também a aragem dos dias sempre tão difíceis.
Alicia Kopf agitou o mundo da literatura com este que é o seu livro de estreia. Foi vencedor do Prémio Llibreter, Prémio Documenta, Prémio Cálamo, Prémio Ojo Crítico. O título não é apenas um acaso feliz: o irmão da autora, diagnosticado com autismo, personifica de forma alargada esse gelo que de físico pouco tem quando comparado ao gelo emocional, que derrete, que queima, que zanga:
"A deficiência costuma ser entendida como aquilo que impede um indivíduo de ser auto-suficiente e, por isso, de ter habilidades pelas quais os outros - a sociedade - queiram pagar. Embora vivendo deste modo, no aspecto económico muitos de nós poderíamos incluir-nos nesta categoria. Também há muitos deficientes que cobram quantias muito avultadas; deficientes emocionais severos, cretinos de vários níveis que dirigem empresas e países. Deste modo, por um ou por outro motivo a deficiência parece uma característica bastante comum à maior parte da população, incluindo eu própria, se nos ativermos ao facto de que ninguém é de todo independente e completamente funcional." p.34 e 35
Um livro original, que cresce numa escrita cansada, de quem não quer realmente saber se vão apreciar um tom mordaz, zangado, talvez resignado. Uma enorme sensibilidade, porém, obrigará o leitor a saber casar, e destrinçar, essas camadas de gelo que a autora, com um entusiasmo cauteloso, lhe faz chegar.
«Irmão de Gelo» tem nele a vida, a família, o amor no seu estado mais puro, a individualidade que reclama um Eu cheio, que não se encontra:
"Uma vez gostei de alguém que não gostava de mim. Isso fez com que gostasse ainda mais. Algum tempo depois, o comportamento absolutamente indiferente dele para comigo foi convertendo a atração em fascínio; uma imagem com a qual sonhar de uma forma masoquista tendo absoluta consciência disso." p.43
Alicia Kopf, entre essas camadas de gelos diferentes entre si, convida-nos a conhecer a sua caminhada, as suas convicções, reflexões e medos enquanto mulher, filha e irmã, até porque:
"(...) as regiões polares deixam uma marca naqueles que lutaram por elas, cuja profundidade não se explica facilmente aos homens que nunca saíram do mundo civilizado."
O irmão está lá, nessas regiões polares, a fazê-la questionar o quanto amada poderá ser ou, ao invés, qual o nível de perfeição esperado, à imagem de um vazio que ninguém percebe, apenas sente.
"Nas famílias por vezes há pessoas particularmente fortes, carismáticas ou luminosas. Estas personagens, se estiverem demasiado concentradas em si próprias, costumam fazer vítimas à sua volta." p.125
É nesse conjunto de camadas de vida, e de gelo, que Alicia Kopf põe a nu uma mulher congelada entre passado e presente, entre anseios de um futuro estagnado pelo medo de amar e, sobretudo, pelo abismo que sempre se adivinha nos mal amados. Naqueles que, pela força das circunstâncias, deixam de se perceber naquela neblina fria, nos olhares desajustados apenas e só para um lado. O lado mais fraco talvez, mas que - ainda assim - é (mais) olhado.
Um livro que aflige, que é uma aventura de quem se busca a si mesmo, entre ventos e chuvas que nem sempre arrefecem só as mãos, os pés ou a ponta do nariz. É lá dentro que tudo congela, uma intempérie chamada coração.
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