© Fotografia de Denise C. Rolo
É inegável, para os leitores de Jane Austen, a constatação
da ironia subtil das suas histórias. Ironia essa apontada a uma sociedade
estigmatizada e muito padronizada. Desde o lugar da mulher, o seu papel em
detrimento à valorização, quase total, do homem, é outro aspecto inequívoco das
suas obras. Em «Emma», não será diferente. E será ainda melhor.
Creio que «Emma» seja uma das personagens menos adoradas
pela maioria dos leitores. No meu caso, posso dizer que Emma se tornou uma das
minhas personagens preferidas de Austen, se não a preferida. Ainda estou a
ponderar se coloco Elizabeth Bennet em segundo lugar. Tarefa árdua. [risos]
Nesta história acompanhamos Emma, uma jovem de boas
famílias, com a ideia de estatuto social e a consciência de classe muito
enraizada. É consciente das suas capacidades, a nível intelectual, mas
sobretudo a nível emocional. Sem rodeios, Emma tem-se em grande, grande conta.
O leitor entra no mundo de Emma no momento em que Mrs. Weston, até então a preceptora da jovem, sai daquela casa para se casar e criar
a sua própria família. A solidão de Emma faz-se sentir de forma avassaladora
pelo que, sem demoras, dedica-se a encontrar uma nova amizade, que lhe preencha
o vazio dos dias. Conhece Harriet, jovem de um estatuto social inferior, mas
cuja amizade tem tudo para proliferar: Emma orienta, Harriet segue-lhe os
passos.
Jane Austen construiu uma bela história em torno das
aventuras e desventuras de uma jovem rica, sem preocupações e cuja intenção,
verdadeira, é provocar e criar os casamentos mais promissores da zona. Emma
sente-se detentora de competências emocionais para lá do razoável, usando essas
mesmas capacidades para, na sua ideia, tornar o (seu) mundo mais feliz, mais
harmonioso. Contudo, há uma palavra que está sempre presente nesta que é a
grande premissa do livro: equívoco.
A vaidade, o quase egocentrismo de Emma, vão dar origem a
uma catadupa de mal entendidos, de muitos equívocos, transformando as
personagens em pequenas marionetas conduzidas ao sabor da sua própria, e
inocente, vontade.
Quando refiro que a maioria dos leitores não gosta de Emma,
creio que o mesmo se deva à sua intromissão, contudo, não a percebi com má intenção nas suas ações. Emma deseja, profundamente,
criar uma sociedade mais feliz e sente, genuinamente, que tal pode estar ao seu
alcance. Os equívocos, contudo, vai surgindo um atrás do outro, dando origem a
uma teia de histórias que se misturam, a segredos que podem mudar vidas e a
muitas situações caricatas.
De todas as personagens, Mr. Knightley é a que se assume
como pêndulo de Emma. Na minha perspetiva, esta é uma história não só de
apontar de dedos a uma sociedade muito tacanha, bem ao jeito de Jane Austen,
como é também a história de uma jovem, a desenvolver-se emocionalmente ao
encontro da sua verdadeira maturidade, que aprende com os seus erros, cresce e
distancia-se daquilo que, outrora, vivia como dado adquirido. Encontra, através
do caos dos outros, ecos de si mesma e, finalmente, o equilíbrio de que tanto
precisa.
«Emma» é, assim, uma história de crescimento e de maturidade
na sombra de uma sociedade tipicamente recheada de maus vícios. E todos nós
sabemos que maus vícios, não nos levam a bons lugares. Os teimosos que continuem a teimar.
Mais um clássico incontornável da literatura e que só vem reafirmar o quanto Jane Austen tinha para nos dizer à sombra das aparentemente "simples histórias de amor".
.png)
Enviar um comentário