Amy e Isabelle (E. Strout)

© fotografia de Denise C. Rolo

As páginas deste que é o primeiro livro de Elizabeth Strout, poderiam ser portas que se abrem à complexidade de ser família, como quem espreita, envergonhado, as dores alheias e afinal, tão parecidas às de todos nós.


Na delicadeza a que já nos habituou, a autora traz a lume, uma vez mais, os fios intrincados que dão força aos relacionamentos. Voltamos a ser desafiados a ler a delicada relação entre mães e filhas. Amy é uma adolescente tímida e na sua vergonha custa-lhe admitir que a mesma se estende à própria mãe, Isabelle, mulher bibelô que aprendeu a viver à sombra do medo e do peso de uma culpa que de sua teve muito pouco.


Nunca se falou tanto desse conceito ridiculamente almejado de Pais perfeitos. Há um peso carimbado nas mãos de quem segura, pela primeira vez, um bebé. Esse peso adensa-se pela vida fora, a responsabilidade de quem pôs uma menina de cabelos tão lindos nesse mundo, o peso, esse peso de dar um passo em falso e o medo como arma a todos os males que lhe possam entrar pela porta.


Um dos aspetos que considero mais brutais neste livro é a forma como a autora construiu Amy e Isabelle e a impossibilidade do leitor assumir um lado demarcado pelas dores de cada uma. Strout escreve um livro que não dá margem a que nenhum dedo se levante, em riste, ora para culpar uma possível mãe negligente que não percebera que a filha, agora adolescente, tem um corpo que atrai e que isso pode ser o fim dela como, na medida exata, jamais culparemos uma adolescente inocente que vive, diariamente, aquele confronto cruel de um corpo que muda e lhe grita desejos até então, desconhecidos.


«Amy e Isabelle» é muito mais do que uma história sobre a relação delicada de uma mãe e a sua filha. É um livro que sublinha esse jogo de espelhos de que a parentalidade é feita. Uma Mulher que, também ela, foi criança, foi adolescente e que traz agora, como Mãe, uma bagagem de sombras, de medos e arrependimentos.


“Nem todo o amor do mundo podia impedir a terrível verdade: passamos quem somos aos nossos filhos.”


Magistralmente construído e num desenvolvimento em crescendo, Isabelle será agitada pelo futuro incontrolável e, talvez pela primeira vez, aceitará de ânimo leve ser, tão somente, folha ao vento. A ousadia de agora se permitir à ideia de que os pratos por lavar, também eles, podem esperar.





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