O Monte dos Vendavais (E. Brontë)

fotografia de Denise C. Rolo
© fotografia de Denise C. Rolo

RELEITURA 15 ANOS DEPOIS

Contém Spoilers

Entrar em Wuthering Heighs (Yorkshire, inícios do século XIX) é saber, de antemão, que o ar ali é capaz se de cortar à faca. Na análise de G. Bataille, o Monte dos Vendavais era aquele lugar entendido pelos altos onde o vento entra em fúria, num prenúncio claro à essência da obra.


Os ventos uivam e para o leitor que já abriu o livro mais do que uma vez, saberá que também as suas páginas discorrem mais devagar. O peso de cada palavra parece ter sido ponderado por Emily de forma tão absolutamente genial, que aqui tudo estagna. Intencionalmente.


Grande Clássico da Literatura Inglesa, escrito em 1874, conta-nos uma história que, para uns, será de amor, para outros, será de vingança. Eu diria que é impossível separar ambos. Diria que aqui se escreve um amor tão forte e na mesma medida tão nocivo que, naturalmente dali brotariam raízes de rancor que só a vingança, que sempre se serve fria, pode (tentar) aplacar.


Através da Governanta Ellen Dean, que narra grande parte da história ao recém-chegado inquilino Mr. Lockwood (também narrador), ficaremos a saber que o Senhor e a Senhora Earnshaw viviam no «Monte dos Vendavais», com os filhos Catherine e Hindley. Um dia, numa viagem, o Pai regressa com um menino abandonado à sua sorte, mulato e sem modos. Recebido com sete pedras na mão, é assim que Heathcliff nasce na história e cresce movido a ódio. Detestado especialmente por Hindley, após a morte do Pai, o rapaz perde a única proteção que tinha e viverá muitas humilhações. Contará com o apoio da também selvagem e espírito livre Catherine, a única que o adora. Começa por se desenvolver um amor infantil, mas que depressa se estreita em laços tão profundos, quase sobrenaturais, em que ambos se sentem um só. “Eu sou Heathcliff”, chegou a dizer Catherine.  Mas eis que o tempo passa e com ele, entra Edgar Linton em cena, um homem de boas famílias, aprumado, e que será a escolha de Catherine para casar, não por vontade, apenas e só por conveniência social.


Esta postura será um golpe para Heathcliff que, sentindo-se traído, desaparece para meses depois, voltar com uma condição financeira invejável e, inclusivamente, como dono do «Monte dos Vendavais», entretanto hipotecado pela vida boémia de Hindley que sucumbiu à dor da perda da sua esposa, ignorando cruelmente Hareton, o seu filho. O terreno da vingança desejada começa a crescer, primeiro, com Hindley e, depois, com a própria Catherine.


Isto marca apenas o início deste que é um livro poderoso, perturbador, feito abismo onde nem o leitor mais preparado, deixa de cair, irremediavelmente. 


Como dizia, é impossível para mim apontar o livro como história de amor ou de vingança. Aqui tudo se mistura. Há um amor visceral que parece levar tudo pela frente e, talvez, essa intensidade demoníaca seja sentida como algo a que se deve fugir. Não podemos falar de amor não correspondido, ambos se amam. Não podemos falar de ternura, pois ambos se odeiam. Das leituras mais perturbadoras e que dão azo a inúmeras interpretações e reflexões, eu diria que sim, esta é uma história de amor marcada pelo rancor do que não foi, pela saudade que não se admite, pela loucura da ausência, a doença como consequência e, por fim, vinte anos após a morte de Catherine, uma leve aragem de redenção.


Ao contrário da conhecida frase “Até que a morte nos separe”, aqui, Emily pintou um cenário magistral de um amor que, de tão atormentado, de tão louco, de tão demoniacamente poderoso, só pode renascer na sombra eterna da morte.


Não tenho palavra que melhor preencha o que sinto quando falo deste livro: poderoso. Absolutamente poderoso. Um livro-abismo, que não deixa ninguém, quero crer, indiferente.

 

Definitivamente, um dos livros da minha vida.

 


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